Ele veio com os raios oblíquos da tarde, embarcado nas fartas gotas. O peito inflado cintilava aos cristais que lhe escorriam das penas. E cantava - não como cantam os bem-te-vis, à chegada e à partida do dia, mas como cantam os pássaros de alçapão à descoberta e ao gozo da liberdade. Pousou em uma antena, parecendo tomado de felicidade que não ouso discutir nem alcançar.
Caía, forte e vítrea, súbita chuva de verão. Parte do céu abençoava em luz a tarde; parte a batizava nas múltiplas águas.
Ao fim de um dia quente e seco, tudo parece sorrir ao toque da chuva. A brisa difunde o ar fresco e úmido entre pedras, pétalas, penas, poros, pulmões. E aquele louro peito, a cantar, equilibrando-se sobre a haste metálica; a bater asas, saudando, agradecendo, comungando a luminosa aguada, é a imagem do bem ver a vida:
Bem te vi!
E quanto mais canta e dança, mais o sol - entre os acordes da luz branca e os arpejos do arco-íris - faz-lhe coro e esplende-lhe o peito, a cabecinha, o corpo inteiro:
Bem te vivo!
Aquela muita alegria, aquela cinética, sonora, incisiva expressão de amor cresce, expande-se, difunde-se; penetra, infunde, transfunde sua essência, até a mais mínima partícula de ser (e de simples estar) no mundo, em metafórico exercício de unificação. De repente, descubro que aquele canto é também o meu canto, e o canto das plantas, das aves, de todos os seres, de todos os grãos. Que aquele momento é o meu momento, e o das plantas e aves e seres e grãos, em todas as eras, infinito afora.
Aquele ser iluminado me ensina - como Parmênides, desde cinco séculos a.C., ensina ao mundo - que tempo e universo são indivisíveis.
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