“A pessoa pode nascer com o dom de cozinhar, mas tem de aprender a assar” - Brillat-Savarin (1755-1826) Fundador da crítica gastronômica
É possível que você, leitor, ainda se lembre da campanha de lançamento de um certo produto no Natal de 1982. O ‘ainda’ vai por conta do excesso de informações midiáticas às quais somos submetidos todos os dias, numa overdose de dados que bem podem ser deletados pelo nosso cérebro explorado. Voltando ao início, na telinha do televisor surgia um ator vestido como senador romano, túnica branca e coroa de louros. Usando a linguagem dos césares dizia olhando de forma vitoriosa para o público: “Ave, Chester! Nobilis avis, coxobus suculentus, pectus fartus et humidus.”
Foi sucesso imediato. Mas não tardou para que os brasileiros começassem a fazer piada: “Esse bicho, vivo, ninguém viu, é igual a bacalhau com cabeça”. Coisas assim. E com razão se estranhava aquele frangão metido, parecendo mais parente do peru, até no nome artificial, pois derivado da palavra inglesa chest, peito. De que cor as suas penas? Seria arisco como uma galinha ou lento como um pato? Teria uma voz peculiar? Ninguém sabia responder.
Partindo do pressuposto de que não haviam povoado a arca de Noé, de onde viriam essas aves que se multiplicavam nas mesas dos brasileiros naquele Natal e em todos os outros subsequentes? Elas eram oriundas, soube-se então, de uma espécie conhecida por Gallus gallus, originária da Escócia e trazida dos Estados Unidos ao Brasil pela Perdigão no final dos anos 70. Entraram em nosso país as “avós” do que viria a ser o Chester. Aquelas aves, de linhagem pura, foram levadas para a granja avícola Passo da Felicidade, em Tangará, RS. A granja era dotada da mais avançada tecnologia e havia sido construída em meio a uma reserva florestal de propriedade da empresa, para proteger os animais de contaminações. Durante três anos uma empresa especializada em genética avícola administrou sucessivas seleções e cruzamentos de linhagens diferentes, até chegar a uma ave com grande concentração de carnes nobres, 70% de peito e coxas. Era o Chester. Dessa maneira, a partir de um pacote genético e de informações técnicas sobre a espécie, a ave vem sendo criada pela Perdigão, proprietária da fórmula. A empresa supre a demanda do mercado interno e atualmente exporta para 25 países.
Agora, outras informações. Vou contar como fiz meu Chester, seguindo à risca receita da saudosa Ofélia Anunzziato, a cujo livro Cozinha Maravilhosa algumas vezes recorro.
Primeiro, descongelei, deixando na geladeira por doze horas. Retirei da embalagem, lavei e sequei. Porque embora se diga e escreva que ele já vem temperado, acho que faz toda diferença você temperar a seu modo. Usei alho, sal, pimenta-do-reino, cerveja. Deixei algum tempo neste molho, mais ou menos quatro horas. Em seguida, coloquei na superfície da pia e besuntei com bastante manteiga. Untei uma assadeira com manteiga também. Coloquei o Chester e o molho, cobri com papel alumínio. Levei ao forno, 220 graus, por duas horas, mas a cada meia hora abria o papel e umedecia a ave com o molho do fundo da forma. No final do tempo retirei o papel, pincelei toda a superfície da ave com mel e voltei ao forno por mais meia hora. É o mel que confere uma cor linda ao assado. Enquanto o mel cumpria seu papel de bronzeador, preparei o acompanhamento. Fritei na manteiga a cebola picadinha e os tomates. Juntei as maçãs cortadas em cubos e mexi bem. Salguei de leve. Misturei a farinha de mandioca crua aos poucos, para a farofa não ficar muito seca. Finalizei com os ovos cortados e o cheiro verde bem picadinho. Retirei o Chester, coloquei no prato de servir, arrematei com a farofa de um lado e a alface cortada em tiras do outro. É uma excelente opção para o almoço de Páscoa.
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