No último domingo, o programa Fantástico mostrou a naturalidade com que a corrupção se movimenta em nossa sociedade. Por meio de várias câmaras instaladas em uma sala simples da ala administrativa do hospital Clementino Fraga, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os brasileiros puderam assistir de suas casas um exemplo dos muitos cambalachos que ocorrem em várias outras salas como aquela, espalhadas pelo país, desviando rios de dinheiro público para bolsos e interesses privados.
Obviamente, tudo aquilo que foi mostrado não chegou a ser novidade para ninguém que já tenha experimentado um pouco mais de nosso convívio social. Sabidamente, a corrupção está arraigada em nossa história, faz parte de nossa tradição aristocrática, autoritária e paternalista.
Porém, por mais que estejamos acostumados a saber que ela existe, é totalmente diferente quando a assistimos nas cores mais vivas de nossa televisão. Causa, no mínimo, uma confortável indignação. E olhe que as cenas não mostravam nenhum político. Não havia prefeitos, deputados, vereadores ou tesoureiros de partidos, muitos deles acostumados à alcunha de corruptos.
Não, pela ‘telinha’ desfilaram apenas pessoas comuns, homens de negócios e funcionários desses empresários, homens e mulheres que poderiam ser de nossa convivência social, vizinhos, colegas de trabalho, pais dos amigos de nossos filhos ou apenas conhecidos que dividem com a gente as agruras e as alegrias do cotidiano.
Em função disso, talvez se possa pensar que a corrupção seja algo inerente a nossa sociedade, uma espécie de DNA que marca e contamina o todo social. Essa percepção, no entanto, é completamente errônea, a despeito de ser a mais aceita por nós brasileiros e também por muitos estrangeiros.
Corrupção, caros leitores, não é algo que se inscreva geneticamente nas pessoas. Com certeza, não somos intrinsecamente corruptos, nem herdamos nada que nos predisponha à corrupção, nem de nosso passado colonial, nem de nossa história recente. Tampouco podemos dizer que somos mais corruptos que os japoneses, suecos ou dinamarqueses, por exemplo. No fundo, somos todos seres humanos, sujeitos aos mesmos desejos, às mesmas necessidades e às mesmas tentações desse mundo globalizado.
Apesar da tradição do compadrio e do jeitinho brasileiro, o verdadeiro problema que se instala em nosso país e que faz persistir essa chaga da corrupção encontra-se na impunidade e na falta de uma fiscalização mais eficaz. O que nos falta não é brio ou honestidade, mas sim leis mais rígidas e mais auditores e fiscais que pudessem criar sistemas e controles para descobrir os grandes rombos no erário público quando eles ainda estão pequenos.
Na Dinamarca e na Holanda, por exemplo, existem 100 auditores para cada 100 mil habitantes. O Brasil, um país com um dos mais elevados índices de corrupção, de acordo com o Word Economic Forum, tem apenas 8 auditores para a mesma proporção de habitantes.
Portanto, precisamos de mais fiscalização, leis rígidas e, claro que elas sejam cumpridas.
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