Os Correios foram rápidos para criar uma bolha de proteção e blindar Lorelai Oliveira Telini Rosa, funcionária da agência central de Franca. Lorelai era a atendente que estava no dia 16 de novembro de 2011 no guichê 9, o mesmo utilizado pelo promotor de Justiça da Cidadania, Paulo César Corrêa Borges. Foi ela quem afirmou, em depoimento formal, ter recebido a postagem do envelope que continha a denúncia forjada contra membros do Judiciário em Franca. Ontem, nenhuma tentativa de contato com a funcionária foi autorizada pela direção dos Correios.
Lorelai é testemunha chave no processo em que o juiz de Direito José Rodrigues Arimatéa, responsável pela Vara do Júri, Execuções Criminais e da Infância e da Juventude, acusa o promotor Paulo Borges de ter postado as cartas anônimas com denúncias forjadas de nepotismo. A suposta irregularidade teria sido cometida por um assessor direto do magistrado (leia mais em texto nesta página). A carta continha também pesadas ofensas pessoais dirigidas ao juiz Arimatéa. Todas as acusações se mostraram falsas.
A funcionária confirmou que a correspondência foi postada em seu guichê. “A carta (...) tem selo e carimbo e foi colocada no meu guichê”, disse Lorelai. No guichê 9, o promotor foi flagrado pelas câmeras de segurança dos Correios, na mesma data da postagem da carta anônima, “segurando papéis”, conforme constatação da perícia determinada pelo juiz, e aparentemente postando duas cartas.
Paulo Borges admite que esteve na agência dos Correios naquela data mas nega a postagem da carta anônima. Segundo o promotor, sua ida aos Correios teve finalidade específica: requerer a emissão do CPF de dois filhos. Os comprovantes com o detalhamento dos serviços prestados de emissão do CPF são o principal argumento de defesa do promotor, mas esbarram numa fragilidade: postagens de cartas podem ser feitas sem geração de recibos.
Ontem, no dia em que a denúncia foi publicada com exclusividade pelo Comércio, o gerente da agência central dos Correios, que se identificou apenas como Fernando, proibiu o acesso da imprensa à funcionária. Disse que somente a assessoria de imprensa dos Correios daria informações sobre o caso. Acionada na tarde de quinta-feira, a assessoria alegou que não conseguiria levantar as informações até o fim do dia e se limitou a enviar um e-mail lacônico: “solicitamos aguardar nosso retorno”. Nenhuma informação sobre o prazo estimado para um posicionamento dos Correios foi incluído na mensagem.
Ao final do expediente de ontem, na saída da agência central dos Correios, um mutirão foi organizado para blindar a testemunha chave do processo. Às 17h51, Lorelai saiu pelo portão lateral da agência escoltada por pelo menos sete funcionários, todos já sem o uniforme dos Correios, que diziam: “Vaza, vaza”. Um Celta preto estacionou no calçadão em frente à agência. Foi nele que a funcionária deixou o trabalho.
BIS
A resistência dos Correios em fornecer informações sobre o caso não é novidade. O próprio juiz José Rodrigues Arimatéa afirma, em sua sentença, que precisou solicitar duas vezes as gravações do circuito interno que registravam a presença de Paulo Borges no interior da agência. O juiz deixa claro que as imagens só foram cedidas após o alerta de que a recusa em atender a determinação judicial poderia implicar os responsáveis pela agência em crime de desobediência.
“Requisitamos as imagens das câmeras de vigilância da agência Centro do Correios, onde a carta foi postada, na data da sua postagem. Estranhando a ausência de resposta à requisição judicial, no prazo estipulado, nova requisição foi feita, desta vez, acompanhada da advertência sobre a prática do crime de desobediência”, afirma o juiz, que também deixou explícito em sua sentença o comportamento pouco colaborativo dos responsáveis pela agência central dos Correios. “Atendida a requisição, com atraso e má vontade, a CPU do computador, contendo as imagens, foi submetida à perícia criminal.”
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