“- Como vai falar com um cadáver?
- Na verdade, deixo que ele fale comigo...
E de fato, ele já falou. Não o ouviu? Ele me disse que não cometeu suicídio.
- Não... não percebi...
- Este homem se jogou para a morte usando óculos de grau. Quem pula tira os óculos. Suicídio é o mais alto grau de egoísmo, detetive. É pouco provável que alguém covarde o suficiente para se matar seja corajoso a ponto de ver a sua própria morte.
- Consegue saber tudo isso apenas olhando esses óculos?
- Você não faz ideia.”
O diálogo entre um detetive e o supervisor do escritório forense de Las Vegas, Gil Grissom, no segundo episódio da primeira temporada da série CSI (Crime Scene Investigation), ao lado de um corpo estirado no chão, ajuda a traduzir um pouco do que é a profissão de um perito criminal. As semelhanças, porém, entre o seriado americano e a realidade no Brasil, acabam aqui.
Vasculhar a cena do crime, recolher provas e recriar o que aconteceu sem ter estado lá são algumas das prerrogativas do cargo escolhido por Bruna Liboni, 29, biomédica de formação, Leandro Teruel, 29, biólogo, Gustavo Cordeiro, 28, farmacêutico, Carla Souza Silva, 25, química, e Sandro Viola, 34, matemático. Em comum, estes cinco jovens têm o cargo de peritos no Instituto de Criminalística de Ribeirão Preto, um aguçado senso de observação, currículo recheado de crimes solucionados e a idade abaixo dos 35 anos.
Com exceção de Bruna, todos eles vivem na chamada “linha” - ou clínica geral -, que atende durante o plantão de 12 horas qualquer tipo de caso, seja ele acidente de trânsito com vítima, assassinato, suicídio, roubo, desabamento, furto ou encontro de cadáver. O objetivo da perícia é sempre o mesmo: identificar o autor do crime e, para isso, se valem de várias técnicas. Uma delas é materializar a cena encontrada - qualificar de que forma o crime foi praticado e levantar todas as pistas possíveis deixadas para trás, como as impressões digitais, por exemplo.
Estes profissionais, que são chamados todas as vezes que um crime acontece, são os últimos a chegarem ao local, geralmente depois das polícias militar e civil. Eles buscam nos detalhes que passam despercebidos aos olhos de qualquer pessoa que não tenha recebido o mesmo treinamento que eles para a solução do mistério. Todas as provas encontradas constam no laudo pericial, que vale como prova no caso de prisão -ou absolvição - de um suspeito.
Ao contrário do que séries como CSI, Bones, Law and Order mostram, a rotina de um perito não tem nada de hollywoodiana. No Brasil, o perito não faz parte da investigação como nos seriados: eles não falam com suspeitos ou assistem as autópsias, não fazem interrogatórios, não pedem mandado de busca e apreensão a juiz nenhum com base nas suas investigações e descobertas e nem têm acesso a bancos de dados digitais - no máximo mandam uma impressão digital para o IIRGD (Instituto de Identificação “Ricardo Gumbleton Daunt”) para ser comparada, manualmente, com a de criminosos já cadastrados.
“Não temos as tecnologias que os seriados mostram, mas, como na TV, trabalhamos com base nas evidências e na observação. O resultado é a verdade e nada mais gratificante do que trabalhar com ela”, garante Kyoshi Airton Ogassavara, 58, diretor do Núcleo de Polícia Criminal de Ribeirão.
Outra diferença é que o objeto de estudo do perito científico nunca é o corpo humano. O mais próximo que chegam dele é com o exame perinecroscópico, que é o exame do cadáver no local do crime, tratado como um objeto de análise, ou seja, não se pesquisa o interior do indivíduo, só por fora. Em comum a ficção e a realidade têm apenas o senso de observação, o desejo de descobrir a verdade e algumas (poucas) tecnologias disponíveis no Brasil para solucionar casos. Um deles é o luminol, um produto químico que consegue identificar resquícios de sangue invisíveis aos olhos, mesmo quando a cena do crime foi alterada e limpa com fortes produtos. Há ainda outros equipamentos e produtos tão eficazes quanto este.
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