Mandioca e queijo


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“Não chegamos a conhecer as pessoas que vêm jantar em nossa casa; para ver como elas
são devemos ir à casa delas” - Goethe(1749-1832) em As Afinidades Eletivas.

Cláudia Regina é uma mulher disposta e antenada, que já foi gerente de restaurante em Campinas. Ela me ajuda na cozinha quando nos reunimos no Rancho Bela Vista, onde a filha Vanessa e o genro Tiago exercem funções de caseiros. Gosto do jeito despachado e ao mesmo tempo educado de Cláudia. De sua resistência física testada horas a fio entre pia e fogão. Da sua humildade genuína, que não deriva de subserviência, mas é resultado de observação de si e dos outros; e da conclusão sábia de que muitas vezes somos totalmente impotentes diante de certos acontecimentos da vida. Aprecio principalmente sua disposição em querer aprender algo novo, como a massa de pão que juntas sovamos no final do ano passado e ela reproduziu com êxito para seu marido, já com toques especiais de quem gosta de acrescentar algo diferente para transformar o já conhecido em novo.

Foi ela quem me interpelou, na última vez em que estivemos por lá, enquanto nos esfalfávamos entre o forno e a churrasqueira, no tórrido verão rifainense: “Por que não publica receitas para todo mundo?” Ela se referia a esta seção de culinária do Comércio, jornal que recebe em casa e devora como leitora curiosa e atenta ao mundo que se desdobra em tantos a cada hora; em tempo de Internet, a cada minuto. “Como assim para todo mundo?”, devolvi. Ela queria me dizer que eu deveria apresentar pratos que exibissem ingredientes fáceis de serem encontrados e a preços acessíveis, para que qualquer dona de casa pudesse experimentar. Não disse a ela que camarão e filé pintam por aqui poucas vezes; e que nas últimas semanas tinha escolhido arroz e feijão para o baião-de-dois, massas encontradas em qualquer supermercado, prosaicos ovos e até quirera de milho, dos mais rústicos elementos da cozinha mineira. Mas me senti desafiada a pensar num prato bem bom e barato, além de fácil de fazer.

Tinha voltado para casa com um pirex cheio de mandioca cozida, cor amarela e excelente qualidade. Vi que , amassada, poderia esconder refogado de carne seca, combinação comum no nordeste. Mas não havia essa carne em casa e ainda que a tivesse haveria de dessalgá-la, o que levaria pelo menos 24 horas. E eu estava com pressa, sempre premida pelos horários do fotógrafo do GCN. Que tal um quibebe? Faltava um pedacinho de linguiça. Em compensação sobrava na despensa uma maravilhosa metade de queijo da Canastra, iguaria à qual poucos dão o devido valor. E na geladeira se refrescavam ovos e cheiro verde picado miudinho, do jeito que gosto. Tudo vindo na mesma cesta desde Rifaina. Por que não bolinhos?! Assim, sem receita prévia, me pautando por experiências já antigas, lembrando a importância desta raiz na dieta dos brasileiros de diferentes regiões, e de quebra resgatando a linda lenda tupi que explica a planta como renascimento de uma índia chamada Mani, pus mãos à obra. Aqueci no microondas mandioca/ aipim/macaxeira e passei pelo espremedor. Juntei ovo, apenas um, e mexi bem. Agreguei salsa, cebolinha, farinha de trigo, fermento em pó. Reuni o queijo cortado em cubinhos de 1 cm, mais ou menos. Moldei as bolinhas na palma da mão umedecida, uma colher de sopa de cada vez. Coloquei numa bandeja untada e deixei na geladeira durante duas horas. Fritei depois no óleo bem quente, coloquei para escorrer em prato forrado com papel-toalha, servi acompanhado de molho de pimenta.

Fácil, econômico, saboroso, perfeito em qualquer clima. Produto genuinamente brasileiro, nascido no interior quando os gêneros alimentícios ali custavam a chegar. Hoje, comida de boteco em muitas metrópoles. Espero que Cláudia aprove.

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