Leopoldo Gomes Novais é francano. Começou a trabalhar aos 13 anos de idade e sempre estudou em escola pública. Hoje, com apenas 33 anos, já se mostra bastante à vontade como delegado da Dise (Delegacia de Investigação Sobre Entorpecentes), cargo que ocupa desde o final de 2010. Para quem conhece sua história, essa desenvoltura não causa estranheza. Com apenas 18 anos prestou concurso para escrivão de polícia. Aprovado, ficou no cargo por nove anos e meio. Nesse período, formou-se em direito, em 2002, e também aprendeu muito sobre investigação policial. Obstinado pela idéia de equipe, Leopoldo diz que focou sempre esse aprendizado no trabalho desenvolvido por escrivães e policiais. As mais importantes dicas, diz, recebeu de seus pais, também escrivães de polícia.
Em 2006, Leopoldo prestou concurso para delegado e passou. Na Academia de Polícia aprendeu a unir o teórico ao tático operacional. Depois, foi designado para a 5ª Seccional, em São Paulo. Como era casado, continuou residindo em Franca, o que tornava sua vida bastante cansativa. Em 2009, retornou à região. Antes de assumir a Dise de Franca, seu maior desafio até hoje, Leopoldo passou por Cristais e Patrocínio Paulista, onde começou a mostrar seu estilo de trabalhar.
Conhecido por ser um delegado que vai para as ruas com a equipe, Leopoldo diz que gosta de sentir o que acontece com as pessoas e, principalmente, com sua equipe, o que, segundo ele, é fundamental para o sucesso de uma delegacia. Convicto em suas posições, afirma ser contra a legalização das drogas. Sabe que combatê-las é um problema complexo, mas acredita que esse combate deve ser constante, “uma espécie de luta entre o bem e o mal”, disse ele.
Com um ano à frente da Dise, Leopoldo e sua equipe alcançaram números significativos. Abriram 584 inquéritos policiais, registraram quase 100 atos de flagrante, emitiram 170 mandatos de busca e prenderam quase 200 pessoas: mais de 100 homens, cerca de 50 mulheres e 15 adolescentes. Também se orgulha de uma grande apreensão de maconha, feita no ano passado, de 170 quilos no total.
Conseguiram também atingir o bolso daqueles que lucram com o tráfico, algo que Leopoldo julga muito importante. Em ações que envolveram investigações detalhistas e metódicas, conseguiram apreender veículos, dinheiro, lanchas e bens eletrônicos. Mas, ao mesmo tempo em que comemora esses resultados, Leopoldo também não se ilude em relação à idéia de acabar com o tráfico ou com o consumo de entorpecentes. “Do mesmo jeito que a polícia se organiza, o crime também se organiza”, afirma.
Comércio - O senhor está há apenas dois anos na região e alcançou números expressivos. A que atribui esses resultados?
Leopoldo - Sempre procuro trabalhar em equipe. Apesar de estar à frente de uma, nunca me esqueço de que também faço parte dela. E quando se trabalha em equipe, deve-se observar as várias habilidades das pessoas que a compõem. Umas são boas em informática, outras são melhores em fotografia e há também aquelas que são mais detalhistas, mais eficazes no próprio processo investigativo. Aliado a isso, trabalhamos estrategicamente. Dividimos os policiais por região, de forma que ele possa, com o tempo, conhecer o máximo possível os hábitos e costumes das pessoas e da região. Mas acredito que o principal é o trabalho em equipe, a troca de informações e a confiança mútua.
Comércio - O senhor é conhecido por ser um delegado que vai para as ruas junto com sua equipe. Isso o diferencia dos outros delegados?
Leopoldo - Não acredito que isso me torne diferente. Cada um tem sua forma de trabalhar e isso não quer dizer que uma seja melhor que a outra. No meu caso, penso que ir para as ruas me permite conhecer melhor a realidade vivenciada pelas pessoas e os problemas do tráfico. Ir para as ruas significa também estar junto de minha equipe, saber o que acontece com ela e o que eu preciso fazer para apoiá-la. É por isso que vou para as ruas.
Comércio - Como o senhor avalia a discussão de se legalizar as drogas? Poderia ajudar a acabar com o tráfico e a violência que ele gera?
Leopoldo - Sou contra a legalização das drogas. Se liberarmos as drogas, será uma depravação total da sociedade, pois o país ainda não tem estrutura nem maturidade para arcar com uma decisão dessas. Não temos, por exemplo, um sistema de saúde que possa atender devidamente a todos os dependentes que surgirão se liberarmos o consumo. Além disso, legalizar as drogas não significa, necessariamente, que o tráfico irá acabar. Penso que haveria o comércio legal e também o ilegal, como acontece, por exemplo, com os DVDs.
Comércio - Mesmo com o número significativo de prisões e apreensões, o número de dependentes parece aumentar. Não seria melhor mudar a estratégia e, ao invés de investir no combate ao tráfico, investir no tratamento dos dependentes?
Leopoldo - Vejo essa questão de outra maneira. O noticiário trouxe outro dia que Franca estaria entre as campeãs do tráfico de drogas no Estado. Porém, essas estatísticas mostram justamente que estamos seguindo no caminho certo. Se houve mais ocorrências em Franca, não é porque aumentou o consumo, necessariamente, mas porque conseguimos apreender mais drogas e prender mais traficantes. Quanto a investir em tratamento para cuidar dos dependentes químicos, isso para mim é outra questão, que não se mistura com o combate ao tráfico e ao consumo. Está ligada à saúde pública e, obviamente, dever receber investimento do Estado para o tratamento e recuperação de dependentes, o que é também importante para diminuir o consumo e colaborar, indiretamente, com o combate ao tráfico.
Comércio - Mas o tráfico e o consumo de drogas não são faces de uma mesma moeda?
Leopoldo - Com certeza. Porém, o consumo de drogas existe desde que existe o homem e dificilmente iremos acabar com isso. Entendo o trabalho da Dise como uma forma de diminuir a quantidade e o fluxo de drogas disponíveis para o consumo. Em paralelo, existe outro trabalho que não compete à Dise, mas sim aos governantes, aos responsáveis pela saúde pública e a toda a sociedade. Um trabalho que deve ser de prevenção e de tratamento. De um lado a educação e de outro a saúde pública.
Comércio - Como prevenir o uso de entorpecentes?
Leopoldo - Não é fácil. As drogas são um problema muito sério para a sociedade. Pessoalmente, acredito que nossas vidas se apoiam em um tripé formado pela família, pelo trabalho e pela religião. Se houver problema em alguma dessas bases então podemos ser levados para o mundo das drogas. Dessa forma, é importante cuidar da integridade da família e também fomentar a vida espiritual, a despeito da crença a que se apegue. É fundamental, também, proporcionar uma boa perspectiva de emprego para todos. Mas, o problema é que as famílias não estão muito rígidas hoje em dia e os jovens estão muito soltos. Sou a favor de um pouco mais de rigidez. Crianças ou jovens não podem fazer o que querem.
Comércio - O senhor acha que o fato de jovens não poderem trabalhar antes dos 16 anos contribui para levá-los ao caminho das drogas?
Leopoldo - Não sei se diretamente para as drogas, mas com certeza está levando para próximo delas. Quando não se tem nada para fazer, acaba-se fazendo alguma besteira. Na casa de meus pais, todos os filhos começaram a trabalhar desde cedo. Comecei aos 13 anos e não me fez nenhum mal. Creio que um trabalho seria muito importante para esses adolescentes que ficam o dia inteiro sem fazer nada.
Comércio - Não é frustrante para o senhor alcançar números de prisões e apreensões tão significativos e, ao mesmo tempo, ver o tráfico e o consumo de drogas continuarem intensos?
Leopoldo - De modo algum. Combater o tráfico de drogas é minha função e eu me dispus a isso. Não tenho medo nem preguiça de ir para as ruas para acabar com esses problemas. Como já disse, acredito que na sociedade sempre houve e sempre haverá uma luta entre o bem e o mal. Só não podemos desistir.
Comércio - O senhor é a favor da criminalização do consumo de drogas?
Leopoldo - Na verdade, consumir drogas já é crime. O que acontece é que o usuário não vai para a cadeia. De qualquer forma, acredito que prender o usuário não iria adiantar de nada. O dependente químico precisa é de tratamento, não de cárcere. Prendê-lo só iria piorar o problema, nada mais.
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