O licor


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Morreu-lhe o marido, carpinteiro. Angelina ficara viúva com uma filha para cuidar, Talita. O transtorno da ausência, o lado vazio da cama, o silêncio dos movimentos e falas viris dentro de casa, tudo contribuía para definhar o já frágil semblante de Angelina. Aos poucos, diminuía a vontade de comer, de beber, de rezar, de arrumar a casa de poucos cômodos. Meteu-se nuns panos pretos e assim, de luto, parecia que iria até o seu próprio fim. Cumpria o cotidiano mais por dever de levar adiante a criação de Talita. Talita, ah, essa, acompanhava com seus olhos grandes e tristes aquela imagem negra, solitária e infeliz da mãe. Talita com 16 anos de idade.

Talita não sentia, assim, tanta saudade do pai. Aliás, sua ausência lhe proporcionava, mesmo, uma certa flexibilidade em casa que nunca tivera. Ousava, agora, tingir os lábios de um carmim desmaiado, o rouge acentuava-lhe os zigomas, soltava os cabelos negros que lhe caíam em mechas sobre os ombros. Embora ainda incolor, um esmalte base lhe polia as unhas de modo a se mostrar menina moça, moça pretendendo-se mulher. A mãe não se importava com essas vaidades da filha, aliás não se importava também com sua educação, com seus modos... Nem de longe lhe passava pela cabeça que Talita pudesse ter vida além daqueles cômodos tristes e lúgubres, que alguém pudesse deitar olhos de interesse pela filha...

E assim se passaram dois anos...

A moça estava naquela idade em que, terminados os estudos a que se prestavam as normalistas, não havia mais nada por fazer, a não ser sonhar com alguém impossível, com sua própria casa. Se disse que Talita não sentia saudades do pai, preciso também acrescentar que, aos poucos, foi-lhe nascendo uma aversão pela tristeza incontida e infinita da mãe. Esta, agora, aventurava-se aos doces de figo, de laranja, de ambrosia, aos licores de jabuticaba, jenipapo e meia-de-seda, vendendo-os aos vizinhos, poucos parentes e alguns conhecidos distantes. Mãe e filha não se cuidavam, apenas moravam sob o mesmo teto, dividindo pequenas tarefas e a alimentação.

Corria o ano de 1958.

Em outubro, pisava a plataforma da estação de trens da Mogiana um jovem calabrês, vestido de guarda-pó e chapéu, portando numa das mãos uma maleta de viagem. Chamava a atenção pelo porte, pelo olhar duro e firme, pela robustez. Caminhou rapidamente, dirigindo-se à frente da estação onde ficavam os carros de aluguel. Entrou num deles, acomodou-se no banco de trás e disse ao chofer: Hotel C ...

O rapaz chamava-se Alderi. Conheceu Talita numa sorveteria. Conversara. Simpatizaram-se. Alderi era vendedor de livros, almanaques e tônicos. Viera para ficar dez dias na cidade. Por conta das comissões das vendas que acabara realizando, ficou dez meses, durante os quais sua relação com Talita passou a ganhar contornos machadianos no início, amadianos no fim.

Não sei qual dos dois sugeriu a idéia de levar Alderi à casa de Talita. Sei que a primeira visita ocorreu no mês de agosto, num período de lua cheia, ares secos, folhas esturricantes, calçadas por varrer.

Angelina mostrou-se solícita, o que fez Talita estranhar tanta bondade num coração amargurado.

Marcou-se nova visita.

Alderi retirou-se.

Talita suspirou e sorriu, dirigindo-se ao seu quarto.

Angelina muda, olhos muito abertos, lábios crispados, recolheu os restos da visita, limpou a sala com extremos de escrúpulos e rosnou, lá dentro de si, tenebrosas juras.

Dois dias se passaram, o suficiente para Angelina ir até à drogaria da esquina e comprar arnica e cânfora para imersão em álcool, bom para picadas e batidas, mas letais quando misturadas a uns ingredientes que a seca viúva trazia numa das gavetas da cômoda de seu quarto.

Batidas na porta da sala.

Talita se adianta e atende a Alderi.

Angelina mostra-se mais solícita que da primeira vez.

Sentam-se.

Falam falas ao vento.

Angelina serve o licor de jenipapo, dispondo os cálices sobre a pequena mesa de centro.

Todos bebem delicadamente.

Súbito, Alderi estanca o olhar. Puxa pelo ar que não vem. Arroxeam-lhe os lábios, empalidece-lhe a face... E tomba morto sobre o tapete.

Gritos, sustos, aflições, pedidos de socorro, telefone do vizinho, ambulância, Casa de Misericórdia ... Tudo em vão. Alderi estava mortíssimo.

Fizeram a autópsia com os recursos da época e com o pouco caso que inspirava o corpo morto de um estranho na cidade. Pelos documentos, conseguiram avisar um tio em São Paulo, e nada mais. De modo que a autópsia revelou que o rapaz fora a óbito em face de uma parada cardíaca provocada por grave miocardite.

Em outubro caíram as primeiras chuvas. Na casa do falecido carpinteiro agora perambulavam duas figuras de almas entristecidas. Talita, de olhar triste, acompanhava as gotas de chuva que formavam desenhos na vidraça da sala. Angelina continuava a preparar doces e licores, mas com um estranho sorriso nos lábios. Um estranho sorriso de viúva apascentada.

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