Madorna


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Passa pouco das onze e meia.

Uma espécie de moleza paira sobre o mundo, depois que as pessoas já limparam a marmita, já beberam seu copo de suco quente, já beberam seu café frio, e cada qual já se incorporou à sua tribo. Agora, até as ruas do Distrito Industrial parecem madornar.

As imediações da Fábrica de Calçados Lindopé retratam bem o que acontece nas circunvizinhanças das demais fábricas e dos curtumes.

Ali, sentados na calçada, quatro senhores tentam embaralhar e distribuir cartas de um baralho sebento. Jogam truco, indiferentes às observações de uma dúzia de companheiros que sapeiam, formando compacta roda em torno dos jogadores.

Disputando, corpo a corpo, a exígua sombra projetada por arvorezinha de copa rala, alguns homens cochilam, alheios ao vozerio de motos, de carros, de distantes buzinas. Parecem ignorar os decibéis condenados pela organização mundial de saúde.

Dezenas de moças e rapazes têm fones colados ao ouvido. Ouvem música ou se informam a respeito de escândalos e da violência que medra e grassa na região suburbana em que moram. Alguns fanáticos se preocupam com os comentários do locutor esportivo que prognostica futuro sombrio para a equipe de futebol da Francana no campeonato.

Observando-se o conjunto, nota-se uma parafernália harmônica. Mas, lá no cantinho, há uma anormalidade: um mulato lê atentamente um livro. Suas costas estão apoiadas à parede da fábrica, cuja sombra estreita cobre pedaços do corpo magro do homem.

O leitor é Zé Grilo, considerado sujeito estranho por muitos colegas. Consideram-no arredio porque não joga truco, não discute futebol, não revela a escola de samba por que torce. De fato, economiza conversa, está sempre lendo folha de revista, página de jornal ou um livro qualquer na ida, na volta do ônibus e no horário de almoço.

Feijão Preto é passador de cola, conhecido de todos pelas suas atitudes de encrenqueiro. Está cansado de ver aquele mulato sempre lendo, sempre caladão, como se fosse melhor que os outros.

- Vou acabar com esse enjoamento.

Aproxima-se, interrompe a leitura do outro.

- Por que que você está todo dia com esse livro na mão, fazendo de conta que não existe companheiro pra conversar?

- Estou estudando.

- Estudando, é? Vai ser pastor de igreja por acaso?

- Não, não. Quero ser professor.

- Professor, é?

- É. Eu faço um curso a distância, preciso estudar muito e o tempo é pouco.

- Curso o quê?

- Curso a distância. Se Deus quiser, ainda vou ser professor de Português.

- Professor de português?

- É.. por quê?

- Grande coisa.... Ensinar português até eu ensino e nem preciso estudar nada. Diz que eles são mais burros que burro de verdade... Grande coisa...

Perto e longe da fábrica, sirenes estridulam. Zé Grilo fecha o livro, acompanha Feijão Preto e as outras pessoas. A calçada onde se jogava truco já está vazia, os fones são emudecidos, os rostos sonolentos readquirem vida.

E a fábrica engole homens... tão diversos... tão iguais...

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