Uma coisa não existe sem a outra. O reverso do ato de ler é escrever. O ditado pode ser dos mais antigos, mas prevalece ainda hoje: “escreveu e não leu, o pau comeu’. A própria sabedoria popular demonstra que, primeiro, se aprende a escrita para, só depois, alguém poder chegar à leitura. Numa etapa posterior, já estabelecida a prática escrita/leitura, o ato de escrever fica dependente da ação de ler. A leitura se transforma em fator preponderante para que uma pessoa melhore cada vez mais a sua capacidade de comunicação escrita.
Além disso, a leitura estimula o cérebro em todos os aspectos. Ela representa para o encéfalo o mesmo valor que uma atividade física representa para o corpo. O ato de ler vem sendo considerado uma ginástica ideal para a massa cinzenta do crânio. Faz tempo que a neurociência prega os benefícios da leitura. A ação de decifrar palavras serve até de prevenção para as doenças degenerativas.
Leia que é bom. Pelo menos seu cérebro permanece em forma. Comprovado está pela ciência que quem tem a leitura como hábito, desde a juventude, pode chegar à velhice sem muitos tombos. A pessoa não cai com tanta facilidade, porque ler favorece a coordenação motora. Pode favorecer mais ainda, se houver uma pequena ajuda da parte física, como uma simples caminhada diária. É a velha história se confirmando: ‘mente sã em corpo são’.
Na outra ponta está a população mais jovem com o excesso de leitura digital. A juventude de hoje praticamente escreve somente com o indicador dedilhando as minúsculas teclas do celular. A leitura também se dá por meio deste mesmo dedo apertando os quadrículos em busca de uma informação que não pode ultrapassar 140 caracteres (letras ou números). Aquela coordenação motora advinda do ato de escrever está em franca decadência. Para piorar a situação, andam apregoando que dentro em pouco até as escolas irão disponibilizar (este verbo faz parte da praga informatizada) aparelhos digitais individuais nas salas de aula.
Quando chegar este tempo, talvez até as aulas de educação física sejam em frente do monitor. Movimentar o corpo para quê? O aluno vai ficar sentado, sem fazer movimento algum. Basta olhar as figuras se movimentando na tela. Isso já garante ao estudante o saber de como fazer ginástica. Posteriormente, caso seja necessário em sua vida é só colocar em prática.
Esse parece ser o raciocínio pedagógico de hoje. O processo deixa de ter em si mesmo validade pertinente. Não se ensina mais gramática na escola. Detalhe, as escolas particulares costumam estudar este conteúdo. No geral, o ato de escrever fica apenas por conta do preenchimento de algumas palavras nos espaços vazios de apostilas. Outras vezes, basta tão somente desenhar a letra X no local adequado da alternativa, que nem lida é. Ou então colocar o V (de verdadeira) e o F (de falsa) nas proposições apresentadas nas questões.
Antônio Araújo
Articulista e professor
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