Impossível dizer com certeza se são os comerciantes ou os consumidores os avessos à tecnologia, mas o fato é que na periferia de Franca as vendas feitas através da caderneta e das fichas superam muitas vezes as realizadas com cartão de crédito. Contrariando a sugestão de consultores financeiros, que indicam que os negócios a prazo não devem ultrapassar 30% do total, muitos têm nesse tipo de pagamento, onde a base é a confiança, quase a totalidade das vendas.
O resultado dessa prática pode ser desastroso, já que a falta de garantia gera muitas vezes inadimplência e, consequentemente, a falência das empresas. Segundo Geraldo Célio Alves, consultor do Sebrae na região de Franca e Ribeirão Preto, as estatísticas mostram que 27% das novas empresas fecham as portas antes de completarem um ano. Outras 64% não chegam aos cinco anos. Falta de planejamento e inadimplência são as maiores culpadas, diz ele.
Localizada na zona norte da cidade, a Casa de Carnes Redentor vende um pouco de tudo, de refrigerantes a salsicha. Há 17 anos sob o comando de Aparecida da Graça Barbosa Silva, o açougue tem 80% de suas vendas na base da “ficha”, um pedaço de papel com o nome do cliente, telefone e endereço. Há nove meses, Aparecida instalou uma máquina de cartões, mas os clientes ainda resistem. “Comprar na ficha é uma tradição aqui. As crianças, que vinham buscar uma coisa ou outra a pedido dos pais, hoje cresceram, se casaram e ainda vêm, mas para comprar para suas casas agora”, explica.
Para abrir uma “ficha” basta já ser cliente de Aparecida e pagar direito, porque ela avisa: “Ficou devendo perde o crédito até acertar a conta toda”. A maioria dos clientes assina na ficha a cada compra e paga em 30 dias o total.
Aparecida diz que a inadimplência no seu negócio não é grande porque os clientes são antigos e sabem que um depende do outro: eles do socorro a prazo de Aparecida, e ela do pagamento dos consumidores.
A dona de casa Fátima Souza Leopoldina é uma das freguesas. Desde que se mudou para o bairro, há mais de dois anos, compra ali. Antes morava do outro lado da cidade, no Jardim Bueno, e desconhecia esse tipo de negócio. “Lá a gente só comprava no dinheiro e não é sempre que você tem o troquinho do pão. Quando meu marido recebe, essa é a primeira conta que pagamos.”
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