Aos 24 anos, lavrador de Ibiraci corre atrás do sonho de ser atleta


| Tempo de leitura: 3 min
ESFORÇADO - Fábio de Lima corre em cafezal de Ibiraci; ele percorre 10 km todos os dias e 20 km nos fins de semana
ESFORÇADO - Fábio de Lima corre em cafezal de Ibiraci; ele percorre 10 km todos os dias e 20 km nos fins de semana

Criado em um dos bairros mais problemáticos de Ibiraci (MG), Fábio de Lima da Silva Cintra, 24, sonha um dia levar o nome da cidade para uma Olimpíada e subir no mais alto degrau do pódio. Para transformar o sonho em realidade, ele corre, literalmente. Durante a semana são, em média, dez quilômetros por dia. Aos domingos, Fábio reforça o treino e dobra a quilometragem. Percorre vicinais e as estradas de terra do município, em meio aos cafezais. Vai em busca de um melhor preparo físico e também de melhores condições financeiras, já que na vida tem encontrado só ladeiras.

Fábio de Lima trabalha como lavrador e chapa. Antes trabalhou em lava-jato e tentou ser jogador de basquete - ele tem 1,95 metro e pesa 75 quilos. Quando está na roça, enfrenta o sol e lida com a enxada. No armazém de café, o esforço em nada é amenizado. Carrega sozinho por dia 400 sacas de 60 quilos.

Natural que, após um longo e cansativo dia de serviço, a escolha fosse descansar ou mesmo relaxar com uma bebida. Mas, Fábio tem passado longe dessas escolhas, pois opta por continuar o treinamento iniciado às 5 horas da manhã. “Levanto todos os dias mais cedo, treino e depois vou trabalhar. De tarde vou para casa, troco de roupa e volto a correr. Pelo serviço que exige muito esforço, eu poderia desanimar, mas a força de vontade e o desejo de participar das corridas é que me movem.”

Desejo que, por sinal, começou por acaso após o incentivo de um amigo. “O Hélio me chamou para correr, mas só por hobby, para manter o físico. Íamos até o começo da serra e, um dia, ele me chamou para correr até Franca. Saímos cedo e conseguimos chegar depois de duas horas e meia. Foi aí que vi que tinha potencial para correr.”

Filho de pai lavrador e mãe doméstica, ambos aposentados, Fábio é casado e tem uma filha de 1 ano e cinco meses. Por mês ganha R$ 1 mil, paga aluguel e as demais despesas da casa, além de ajudar os pais. A mulher dele cuida dos afazeres domésticos.

Diante do saldo zerado, não consegue investir na carreira e evoluir de atleta amador para profissional. O tênis de treino tem três anos de uso, o utilizado nas provas foi comprado em uma promoção em Franca. Se não bastasse a falta do principal equipamento para a prática do atletismo, ele também não tem acompanhamento técnico e nutricional, não frequenta academia e sequer tem alguém para patrociná-lo. As duas ajudas que recebe são do patrão e da Prefeitura de Ibiraci (leia matéria nesta página).

“Treino sozinho e não tenho condições de comprar um tênis ideal, próprio para corrida, pois já gasto R$ 100 por mês com vitaminas e não posso comprometer mais a minha renda. O técnico também faz falta, pois um atleta para evoluir não depende só dele. Metade é responsabilidade do treinador.”

Com cerca de 50 corridas e maratonas no currículo acumuladas desde 2007, Fábio começa a colecionar títulos em sua categoria - na Corrida Integração de Campinas chegou a ser classificado para a categoria principal - e se espelha na ex-boia-fria Maria Zeferina Baldaia para chegar ao pelotão de elite das grandes corridas como a São Silvestre, na capital paulista. Zeferina corria descalça pelos canaviais de Sertãozinho, foi descoberta e ganhou várias corridas, entre elas a São Silvestre de 2001 e a Maratona Internacional de São Paulo em 2008.

“Participei no ano passado no pelotão geral e fiquei em 286º. Quero neste ano, quem sabe, correr no pelotão principal”, diz Fábio.

Em 2011, a 87ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre, prova de 15 quilômetros, reuniu 25 mil competidores e foi vencida pelo etíope Tariku Bekele, 24, após 43min35s. Saindo no meio do pelotão de corredores amadores, atrás dos corredores de elite, Fábio completou a mesmo trajeto em 57min42s. Uma diferença de 14 minutos e 7 segundos.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários