Jovem de 29 anos vive preso em solitária dentro da própria casa


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FECHADO - Enquanto segura a mão da mãe, rapaz que tem problemas psiquiátricos olha por abertura na porta de aço no quarto onde mora, no Centro de Franca
FECHADO - Enquanto segura a mão da mãe, rapaz que tem problemas psiquiátricos olha por abertura na porta de aço no quarto onde mora, no Centro de Franca

Na casa simples num bairro da região central, um casal mora com dois de seus três filhos. O imóvel tem três quartos. Dois deles com portas de madeira e outro com uma porta de aço com uma pequena abertura no meio, como uma solitária. Esse quarto não tem nenhum móvel. Apenas um colchão estirado no chão. Lá mora o filho mais velho do casal, de 29 anos. Como se fosse um animal feroz, ele vive aprisionado há 11 anos. E prefere assim. Não gosta de sair para ver a rua. Agride os pais e os irmãos. Cama, ele não tem mais porque já quebrou três. O guarda-roupa também foi destruído a socos e pontapés e não será mais substituído.

O rapaz (o jornal não identifica ele e a família para preservá-los) parece ter metade de sua idade. Franzino e baixo, ele conversa como criança. Segundo a mãe, ele tem retardo mental grave, transtornos de personalidade e mentais decorrentes de lesão e disfunções cerebrais, resultado de uma queda que sofreu na infância.

Ao nascer, diz ela, era uma criança normal, mas a partir dos 15 dias de vida passou a perder o fôlego seguidas vezes. Com dois anos, teve uma dessas crises e caiu, batendo a cabeça no chão. Para desespero dos pais, não recuperou o fôlego. Ficou com o rosto roxo e foi levado desacordado à Santa Casa. “Foi um milagre. O médico achou que ele não ia sobreviver e disse que, se isso acontecesse, ficaria com sequelas”, conta a mãe.

A falta de oxigênio no cérebro teve consequências. Matriculado na pré-escola, não conseguiu acompanhar a turma. Estudou na escola especial na Apae dos 5 aos 18 anos, mas depois não quis mais frequentar as aulas. O comportamento agressivo começou na adolescência. “Quando criança, ele não agredia. Mas, de repente, passou a quebrar tudo, televisão, mesa e cadeiras. Ele quebra o quarto inteiro. Dá soco nas coisas, joga no chão. Bate muito em mim, no irmão e no pai”, disse a mãe.

Ela defende que o melhor lugar para o filho é um quarto apropriado e sob cuidados médicos. Mas em Franca isso não é possível. O Hospital Psiquiátrico “Allan Kardec” está com a capacidade esgotada. Os 200 leitos de internação pelo SUS estão ocupados. Cerca de 60 pessoas com distúrbios psiquiátricos, segundo o hospital, aguardam na fila de internação. São pacientes de Franca e de 21 cidades da região vivendo dramas semelhantes.

Na manhã de quinta-feira, a equipe do Comércio estava na sala da casa entrevistando a mãe e pode testemunhar o drama da família. O jovem percebeu a presença das visitas e, trancado no quarto, começou a dar murros na porta. Ao mesmo tempo gritava “mamãe”. Foram tantos socos que o trinco da porta, que fica do lado de fora, acabou se abrindo. A mãe foi ver o que se passava. Ao abrir a porta, ele saiu agitado para a cozinha, o pai se aproximou e ele jogou uma cadeira no chão e começou a estapear a mãe. Depois segurou a porta aberta do quarto e ficou batendo-a insistentemente contra a parede. Aos gritos, os pais conseguiram fechá-lo novamente. Minutos depois, a mãe abriu uma portinha instalada no meio da porta para observá-lo. Viu, então, que o rapaz estava sem roupas. “Ele tem essa mania.”

A porta do quarto lembra uma solitária de cadeia. A família decidiu blindar o cômodo porque o filho sempre destruía as portas de madeira. “Ele mesmo se prende. Entra no quarto, bate a porta e fica lá dentro. Para ele não trancar por dentro e eu não conseguir mais tirá-lo de lá, pus a tranca por fora.”

EFEITO DOMINÓ
O jovem não é o único prisioneiro, a família também se tornou refém dos transtornos psíquicos que o acometem. Do quarto, ele acompanha toda a movimentação na casa. “Ele chama ‘mãe’ dia e noite. É igual uma criancinha. Se saio na rua, ele começa a me gritar e dá murros na porta. Os vizinhos ouvem, mas se acostumaram. Ele não gosta de nada, não convive com as pessoas. Não posso mais sair de casa.”

A mãe dá banho e troca o filho de 29 anos. A única coisa que ele faz sozinho é se alimentar. “Como ele não aceita o pai e os irmãos, come sozinho no quarto.” O casal tem mais dois filhos, um de 24, que está casado, e o caçula de 18.

A mãe diz que há dias em que pensa desistir da luta. “Às vezes, a gente pensa que não vai aguentar essa vida.” Diz que o rapaz toma medicamentos para se acalmar, mas o efeito é pequeno. “Fico triste demais. Você acha que para uma mãe é fácil ver o filho desse jeito? Não tenho outra opção (a não ser fechá-lo). Não é falta de amor, ao contrário. Dou amor demais para ele”, desabafou.

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