Um americano de 60 anos, aposentado, viúvo há alguns meses, sem problemas financeiros e com certa nostalgia, desvelada na forma como olha alguns retratos na confortável casa em que mora, toma uma decisão. Depois de haver se preparado para receber os filhos que vivem em diferentes regiões do país, e se frustrar porque eles, um a um, desmarcaram o compromisso, resolve viajar para revê-los. Este é o resumo de Estão todos bem, do roteirista Kirk Jones, com Robert de Niro no papel principal e trilha sonora de Dario Marianelli.
“Peraí”, dirá o cinéfilo. “Não há alguma confusão? Esta história não é a do filme Estamos todos bem, de Giuseppe Tornatore, com Marcello Mastroiani e trilha sonora de Ennio Moricone?” Faz sentido a pergunta: o primeiro, com verbo na terceira pessoa, é refilmagem do segundo, com verbo na primeira do plural. Podemos dizer que são duas histórias que têm a mesma gênese e ganham diferenciação na geografia pela qual transitam os personagens e na caracterização dos protagonistas.
Mastroiani foi mais poético, dirigido pelo sempre lúdico Tornatore : ambos latinos, conferiram algo de apaixonante e apaixonado à composição de Matteo, que tem na ópera um forte apelo. De Niro, como Frank , mostra-se mais pragmático e contido, é a tradução da cultura norte-americana centrada na independência e no sucesso. Mas ambos fazem pensar na família e no papel do pai na cultura ocidental, onde o êxito profissional parece ser uma exigência maior que a tentativa de ser feliz.
Os dois protagonistas solicitam em compasso crescente a atenção do público para a qualidade das relações amorosas entre um pai e seus filhos, a partir de um pressuposto milenar de que a função de provedor deve ser a primeira do chefe da família. Os afetos ficam geralmente com a mãe; por isso mesmo ela é sempre a mais lembrada e querida da história.
Se Matteo percorre Nápoles, Roma, Milão, Florença e Turim, depois de deixar a sua Sicília, Frank passa por Nova York, Chicago, Denver e Las Vegas, percurso custoso para quem sai de uma cidadezinha do interior sem nunca ter feito uma viagem de avião.
Com pequena mala na mão e determinação escrita na testa, Frank é fragilidade e fortaleza ao mesmo tempo, reagindo com serenidade aos desencontros, às surpresas e às decepções que marcam sua jornada. Ele não se permite ter pena de si, o que o eleva como herói da história que o roteirista narra com elementos importantes pelo que podem comportar de índices e metáforas.
Durante toda a sua vida, Frank foi funcionário de uma fábrica que encapava fios de telefonia com PVC. Os fios serão então um dos elementos escolhidos pelo diretor para remeter ao feixe de informações que nos mostram um homem que se preocupou o tempo todo com seu trabalho porque este lhe garantiria educar bem seus filhos. Um dos primeiros diálogos o destaca em conversa com duas passageiras no ônibus que os leva a Nova York. Como a revelar que só enxergamos o que nos preocupa ou interessa, ele começa um jogo de adivinho com elas, que não descobrem, claro, o que a janela do ônibus mostra e tem tudo a ver com a vida dele: “fios, quilômetros de fios...”, ele esclarece. Os fios serão imagem recorrente, aparecendo, por exemplo, nas conversas dos filhos ao telefone e numa das cenas finais, de grande delicadeza, declaração de amor tardia do filho pintor ao seu pai.
A história tem estrutura linear. Mas filmes lineares podem ser ótimos, se os atores fizerem seu trabalho de convencimento; o fotógrafo conseguir imagens belas e significativas; os diálogos e os silêncios contarem algo que move o espaço onde olhos não conseguem chegar; e a trilha sonora reforçar o que se tenta traduzir em palavras, gestos, fisionomias, cenários, enredo. É o que acontece com Estão todos bem, onde De Niro impressiona com deslumbrante exercício de naturalidade. Como o Matteo de Tornatore, o Frank de Jones é um Ulisses que viaja em busca de respostas e volta ao lar com uma revelação que o modifica profundamente e pode mudar também alguns conceitos do espectador.
ORIGEM NA PUBLICIDADE
Kirk Jones
Kirk Jones nasceu em 1964, em Bristol, na Inglaterra. Seu início foi na publicidade, em 1992. Esse dado permite avaliar como decorrência destes primórdios a fotografia irrepreensível do filme resenhado ao lado.
Seu primeiro longa é de 1998 e passou quase despercebido no Brasil. Chamado A Fortuna de Ned, é uma comédia da qual os ingleses gostaram, de onde se deduz que se caracterize por um humor sofisticado. Depois, em 2005, fez Nanny McPhee, também comédia do tipo “para toda a família”. Como tem Emma Thompson nas funções de roteirista e protagonista, é de se acreditar que este seja um bom trabalho.
Os bons relacionamentos de Jones na área lhe garantiram duas preciosidades para a trilha sonora de Estão todos bem. A assinatura de Dario Marianelli, responsável pelas trilhas de Desejo e Reparação, Orgulho e Preconceito, O Solista. E a participação de Paul McCartney, que compôs (I Want to) Come Home especialmente para o filme e teve a canção indicada para o Globo de Ouro. No DVD há uma participação de dez minutos de McCartney contando a história da música que ocupa mais de três minutos da trilha sonora.
Serviço
Título: Estão todos bem
Diretor/Roteirista: Kirk Jones
Gênero: drama
Ano: 2008
Duração: 102 minutos
Elenco: Robert De Niro, Drew Barrymore,
Kate Beckinsale, Sam Rockwell
Onde encontrar: Nas locadoras
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.