Celebrar a fé


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Este segundo domingo da Quaresma desperta o valor da fé em nossa vida

Percebendo seu valor, passamos a “celebrá-la”; isto é, torná-la sangue que se entrelaça ao sangue que possuímos e, assim, adquirimos um novo sentido para a vida cotidiana. A Palavra nos ensina: “se Deus é por nós, ninguém será contra nós!”

PRIMEIRA LEITURA
Os primeiros versículos desta leitura do Gênesis (Gn 22) levantam um problema: como é possível que Deus peça a um homem que sacrifique seu próprio filho? Naquele tempo era possível, porque o costume de oferecer a Deus os próprios filhos estava muito difundido. Consta que reis da Antiguidade, quando se encontravam em situações difíceis, procuravam conquistar a benevolência dos deuses, sacrificando o que mais amavam: o próprio filho.
O ensinamento dessa passagem é a fidelidade de Abraão. Ele acreditou cegamente em Deus: abandonou sua terra, renunciou à segurança de sua própria casa e à proteção que lhe era proporcionada pela família e pela tribo à qual pertencia. Cortou todos os laços com o passado porque estava certo de que Deus realizaria a promessa de dar-lhe uma descendência numerosa. Por que, então, Deus lhe pede para sacrificar Isaac? Não estará se contradizendo? Entretanto, mesmo nessa dramática situação, continua acreditando no amor e na fidelidade do Senhor.
Essa fé corajosa é proposta como exemplo a todos nós. Quando somos chamados a seguir Cristo, devemos abandonar atitudes imorais, incompatíveis com o evangelho. A nós, como para Abraão, Deus faz grandes promessas: alegrias, serenidade, paz interior... a seguir, porém, chegam desilusões, horas difíceis e amargas, durante as quais parece que Deus não cumpre o que prometeu. Na segunda parte da leitura são apresentadas novamente as promessas feitas a Abraão. Depois da prova, Deus as confirma, infundindo-lhe um ânimo novo, para estimulá-lo a continuar seguindo pelo caminho da fé.

SEGUNDA LEITURA
A segunda leitura (Rm 8) é colhida da carta de São Paulo aos cristãos de Roma. Curta, é muito linda. Revela como o amor do Pai é definitivo e gratuito e como não pode ser destruído por nenhum pecado e por nenhuma infidelidade humana.
O capítulo 8 de Romanos fala da vida no Espírito. Dois são os temas, o da vida no Espírito e o da filiação divina. Celebra a certeza das comunidades de que o projeto de Deus vai vencer.
Inicia com uma certeza: “Já não existe condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo”. E as perguntas que Paulo faz nos versículos da liturgia de hoje, não admitem outras respostas senão essas: “Deus é por nós, ninguém será contra nós”. “Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós. Por isso, juntamente com ele, nos dará tudo o de que precisamos”. Ninguém acusará os escolhidos de Deus, pois é Deus quem justifica. Ninguém condenará, nem mesmo Jesus Cristo, pois ele morreu e ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por nós.

EVANGELHO
O evangelho da transfiguração de Jesus é sinal de sua vitória e de seu projeto. São Marcos, no capítulo 9, revela o desejo de Deus: “escutem o que o meu Filho amado diz”. A narrativa começa dizendo que Jesus se retirou para um monte muito alto, num lugar solitário, com três dos seus discípulos, os mesmos que também foram testemunhas da sua agonia no Getsêmani.
O versículo 2 fala da alta montanha. A tradição cristã localizou a transfiguração de Jesus no Tabor, uma linda montanha coberta de pinheiros, de carvalhos e de terebintos, isolada e no centro de uma grande planície. Também Jesus abandona a planície onde vivem os homens, onde se age segundo lógica e princípios que não são os de Deus e conduz alguns discípulos para o mundo do Pai. Ele os introduz nos seus pensamentos mais secretos, quer que penetrem nos insondáveis desígnios de Deus sobre o Messias.
As vestes brancas manifestam externamente quem é Jesus. A cor branca era para os israelitas o símbolo do mundo de Deus e também sinal de festa, de alegria, de felicidade. Elias e Moisés são dois famosos personagens do Antigo Testamento. O primeiro é o grande profeta que todos julgavam não ter morrido por ter sido arrebatado ao céu. Na presente narrativa ele entra para apontar Jesus como o Messias esperado. Moisés é lembrado na transfiguração porque, antes de morrer, tinha dito aos israelitas: “O Senhor teu Deus te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é ele que devereis ouvir”. A sua presença tem, portanto, a finalidade de testemunhar que Jesus é o profeta por ele anunciado.
As tendas que Pedro quer construir têm um sentido simbólico importante. Ao pedir para edificar três tendas, Pedro tem certeza de que chegou o tempo do Reino de Deus, a época do descanso e da festa perene, prometida pelos profetas. Também o medo tem um sentido simbólico.
Quando a Bíblia fala de medo diante de uma manifestação do Senhor, pretende referir-se somente a uma experiência de pasmo, de surpresa e de arrebatamento, vivida por qualquer um a quem é dado entrar em contato com o mundo sobrenatural. A nuvem e a sombra são imagens muito comuns no Antigo Testamento, para sinalizar a presença de Deus.
Explicados os símbolos, sintetizemos a mensagem: para instaurar o Reino que Jesus, durante a transfiguração, deixa entrever aos seus discípulos, é necessário passar através do sacrifício da própria vida. Não é possível entrar no Reino de Deus por atalhos, como Pedro tenta fazer. É necessário que todos os discípulos sigam com coragem o percurso trilhado pelo Mestre.
Hoje, também nós estamos sujeitos a ceder às falsas expectativas de Pedro. Podemos deixar-nos iludir que a passagem deste mundo, no qual passamos por tantas dores, por tantas contrariedades, por tantas injustiças, para a felicidade do mundo que está por vir, possa acontecer sem contrariedades e sem o sacrifício e o dom da própria vida. Não há, ao invés, outro caminho que o de Cristo, aquele que chega à ressurreição, passando pelo caminho da cruz.

José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br

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