Na semana passada, a Entrevista de Domingo do Comércio da Franca causou certa polêmica no universo sindical francano. Nela, o atual presidente do Sindicato dos Sapateiros do Município, Fábio Cândido, além de contar um pouco da sua história, discorreu sobre as disputas que ocorrem no interior do movimento operário de Franca. Obviamente, apresentou sua versão desses conflitos e irritou os citados.
Por isso, o Comércio resolveu ouvir todos que foram citados na entrevista. São eles: Jorge Luís Martins, ex-presidente do Sindicato e ex-companheiro de Fábio Cândido, atualmente advogado dos funcionários da Unicamp, em Campinas; Geraldo Xavier de Almeida, presidente do Sindicato dos Condutores de Franca; Sebastião Ronaldo, presidente do sindicato conhecido como o da (rua) Padre Anchieta; e Paulo Afonso Ribeiro, vereador e ex-presidente do Sindicato da Padre Anchieta.
É fato que as disputas dos sindicatos assumiram nos últimos tempos um caráter de brigas e ataques pessoais, onde a troca de acusações é constante. Em função disso, cresce a impressão de que o mote dessa briga acirrada seria o poder político e sindical, o status e o dinheiro - segundo o jornal apurou, o sindicato movimenta pelo menos R$ 800 mil por ano.
Fábio Cândido admitiu na entrevista do último domingo que o dinheiro é importante. Os adversários políticos dele não concordam, sobretudo Sebastião Ronaldo, que afirma ser a posição ideológica a principal questão colocada em pauta nessa disputa, algo como um reflexo, em nível local, da disputa entre Força Sindical e CUT em nível nacional.
A origem de tanta polêmica remonta há aproximadamente duas décadas. Vários desses sindicalistas que hoje disputam a representação dos sapateiros de Franca estavam juntos na época. Porém, no final dos anos 1980, houve um “racha” entre eles. Há várias versões para explicá-lo.
Fábio Cândido diz que foi traído por seus companheiros. Ele havia saído para vereador em 1988 com o apoio de toda a diretoria. Existia um acordo entre eles para as eleições seguintes, quando ele sairia para deputado estadual. No entanto, o apoio não veio.
Jorge Luis Martins, um dos acusados de traição, diz que isso é uma fantasia de Fábio Cândido. “Nunca houve traição, o que houve foi um rompimento, algo que fiz publicamente, em assembleia”, diz Jorge. Segundo ele, o motivo do rompimento foi outro. Ele disse que, logo após assumir a vaga na Câmara, Fábio foi ao Sindicato e colocou sobre sua mesa 15 chaves de apartamentos que seriam entregues à população. “Ele disse que era para eu distribuir para quem eu quisesse. A partir desse dia, continua Jorge, eu rompi com ele porque não concordava com essas práticas.”
Jorge diz que Fábio Cândido afastou-se do Sindicato e também dos ideais que todos que o apoiaram esperavam vê-lo defendendo na Câmara.
Geraldo Xavier vai além. Disse que a diretoria apoiou Fábio na primeira candidatura a vereador para afastá-lo do sindicato, uma vez que sua personalidade era muito autoritária e ele queria mandar e decidir tudo sozinho.
Para Sebastião, foi Fábio quem traiu os trabalhadores, quando, logo após assumir como vereador, abandonou o PT, partido pelo qual se fizera politicamente. “E ainda aliou-se com a direita.”
Posteriormente, como não conseguiu reeleger-se vereador nas eleições seguintes, Fábio tentou montar uma chapa de oposição para retomar a presidência do Sindicato. Segundo ele, porém, a diretoria não permitiu o registro da chapa. Ele conseguiu uma liminar, mas a diretoria conseguiu cassá-la, num “ato autoritário”, como ele classifica.
Na versão de Sebastião, a chapa foi impugnada porque estava totalmente irregular em relação ao Estatuto do Sindicato. “Havia pessoas que não eram sócias do Sindicato nem pertenciam à categoria. Por isso conseguimos impugná-la”, complementa. Jorge disse que a chapa não tinha nem o número de componentes exigido pelo Estatuto.
Em seguida, em 1994, segundo seus adversários, Fábio Cândido aproveitou-se de uma brecha na legislação sindical para solicitar o desmembramento do Sindicato da Padre Anchieta, pleiteando a representação dos calçadistas em nível municipal. Segundo Paulo Afonso, o desmembramento que fizeram em Franca é único no Brasil, um absurdo que prejudicou toda a classe dos sapateiros.
Recentemente, em 2009, 15 anos depois do pedido, Fábio Cândido conseguiu a Carta Sindical e a representação dos sapateiros de Franca. Porém, a julgar pelos acontecimentos da última semana de fevereiro, quando centenas de trabalhadores protestaram em frente ao Sindicato do município, ainda há muita água para rolar debaixo dessa ponte. Segundo Fábio Cândido, os responsáveis pela confusão foram os sindicalistas da Padre Anchieta. Estes, porém, devolvem a acusação. Na Quarta-feira de Cinzas, centenas de sapateiros foram até o sindicato buscar a ficha que garantiria a isenção da taxa de contribuição assistencial. O curto espaço de tem-po e a grande quantidade de trabalhores reivindicando o direito geraram revolta. O sindicato acusou os rivais de causarem a confusão, ao divulgar panfletos apó-crifos com horários errados.
Segundo Sebastião, o problema foi a falta de transparência do próprio Sindicato, que não avisou os trabalhadores da forma correta nem lhes deu tempo suficiente para se opor ao desconto.
Essa longa disputa ainda pode reservar surpresas, pois o grupo da Padre Anchieta mantém luta na Justiça para retomar o sindicato.
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