Caça e pesca: muito além do estômago


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Falar de caça nos dias de hoje parece algo de gosto duvidoso. Vivemos uma era preservacionista, e a caça parece ir se encaminhando para o ralo, sobretudo a esportiva. Determinadas populações afeitas à caça de determinados bichos continuam possuindo licença para caçar, ou seja, a caça dita cultural é tolerada e vista com bons olhos, afinal, trata-se também da preservação de costumes.

Acredito que eu, e muitos de vocês, em condições normais de temperatura e pressão, não caçaríamos. Passo ao largo do desejo de decidir sobre vida e morte de um bicho com minhas próprias mãos. Não vislumbro o prazer de proporcionar o escoar de uma vida, enfim, acho que faltou estilingue na minha educação. Mas é salutar ouvir os dois lados, como manda o bom jornalismo, porque erro mesmo é ter uma opinião e querer impingi-la aos outros. Caçado o radicalismo, deparo-me com uma ótima entrevista do chef Alex Atala - que é um caçador daqueles! E se faltou estilingue na minha educação, na dele sobrou: ainda criança, já manejava uma espingarda de verdade - são outros tempos, reconheçamos.

 O chef Atala pratica todo tipo de caça, inclusive submarina, tem experiência em arpoar tubarões, já quase morreu e matou muito, para comer, por esporte. Justifica a sua “necessidade” de matar através de sua ancestralidade. Declara se sentir em equilíbrio naturalmente quando o macho da família - ele -caça e traz para casa o alimento da mulher e filhos. Admiro a sua declaração, pois corre o risco de desagradar quem justamente lhe garante o sustento: seus exigentes clientes. Não farei interpretação das declarações do chef, colo-as aqui:
“Minha consciência me diz que não existe nenhuma boa razão para tirar a vida. Esta é uma certeza da minha racionalidade. Porém, não sou alguém 100% racional. Sou emocional, animal. Minha constituição física é onívora. Então, fica claro que existe um duelo interno entre matar e obter o prazer de comer. Gosto de pescar; melhor ainda, gosto de caça submarina; melhor ainda, adoro a caça propriamente dita. Nesse momento, me sinto o último dos seres humanos; vejo parte de mim que quase me enoja. Só não me enoja porque não sou só isso. Também não sou santo. A história da minha vida está repleta de erros e arrisco dizer que me orgulho da maioria deles. Essa é uma questão filosófica que aprendi a aceitar e sei que não vou ‘dissolver’. Vamos pensar na mesma questão de outra maneira: comer e reproduzir são atividades vitais. Nós, que gozamos de inteligência, transformamos essas atividades em prazer. E há quem prefira comer...”

E não é só isso, não tenho a intenção de convencer ninguém, nem a mim mesma. Mas, além dos argumentos sentimentais, há também os objetivos. A Federação Nacional dos Caçadores Franceses é hoje dotada do status de preservacionista. Os caçadores são denominados caçadores-coletores e ajudam no controle das espécies, nas invasões indesejadas, na situação geral dos animais selvagens daquele território, são os caçadores sustentáveis. Com isso, embasam uma campanha para o consumo humano da carne de caça. E uma coisa é verdade: essa carne é magra, sem gordura intramuscular, tem mais fósforo do que a carne do peixe é ótima fonte de ferro e potássio.

Vale sair do conformismo e de nossa idéia comum de senso de preservação. Dizer que não matamos é amplo demais para alcançar todos nós. Sob a ótica do budismo, o pernilongo que nos azucrina é vida a ser preservada. Ser adepto do filezinho de frango tão pouco nos inocenta da crueldade, afinal é degradante a condição a que os frangos são submetidos numa granja: não dormem nunca, comem o tempo inteiro, não andam, não vivem - são zumbis-comidas à espera da maturação.

Não pretendo levantar nenhuma bandeira, nem arriscar qualquer sugestão num tema tão apaixonante quanto esse. Os dados sobre comida e capacidade alimentar do planeta são controvertidos, cada canto tem as suas peculiaridades. Acho só que devemos “ir conversando”, porque comemos muito e pensamos pouco.

Dica da semana
De todos os alimentos, o chocolate é um dos que têm o sabor mais rico e mais complexo. Além de leve acidez, do pronunciado amargor e adstringência e da doçura dos açúcares que lhes são acrescentados, os químicos detectaram no chocolate mais de seiscentos tipos de moléculas voláteis. A riqueza de sabores do chocolate resulta de dois fatores. Um deles é o potencial intrínseco de sabor da amêndoa do cacau, o outro é a complexidade de seu preparo, que combina a criatividade química dos microorganismos com a alta temperatura.

O chocolate escuro (amargo) é um ingrediente já plenamente cozido e desenvolvido. No máximo, o cozinheiro terá de derretê-lo em uma temperatura entre 93ºC e 50ºC.

O único aspecto vulnerável do chocolate é a umidade. Se uma pequena quantidade de água cair no chocolate derretido ele irá se transformar em rígido. Parece estranho, mas uma pequena quantidade de água age como cola.

É importante acrescentar líquido na quantidade suficiente para dissolver todo o açúcar e não apenas umedecê-lo. Assim o líquido deve ser sempre acrescentado de uma vez só. Para recuperar o chocolate enrijecido, pode-se acrescentar uma quantidade maior de líquido quente, até que a pasta se transforme em um líquido espesso.
 

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