Neste mês de março completo trinta anos de magistério. Lembro-me como se fosse hoje da minha primeira aula na Uni-Facef, na época apenas Facef. As pernas tremiam como varas verdes ao sabor do vento. Estava então com 22 anos e a aflição era tanta que acabei sendo obrigado, pela primeira vez nesta existência, a tomar um calmante.
Preparei cuidadosamente a aula. Mas antes de ministrá-la oficialmente, fiz questão de repassá-la por três vezes à minha querida e saudosa tia Elza. Ela com paciência e generosidade ouvia e fazia as correções e sugestões que julgava cabíveis, especialmente quanto à forma da minha exposição, gestual etc.
A primeira disciplina que lecionei foi EPB - Estudos de Problemas brasileiros. Ela não existe mais nas grades curriculares. Foi matéria considerada obrigatória nas faculdades pelo regime militar inaugurado no Brasil em 1964. O regime de então, por influência e inspiração da Escola Superior de Guerra, determinou nos currículos do 1º grau a disciplina Educação Moral e Cívica, no colegial OSPB - Organização Social e Política do Brasil e nas universidades, EPB.
Sem dúvida o programa sugerido para a disciplina tinha claro e nítido conteúdo de apoio ao regime militar de 64. Fiz, porém, várias e significativas alterações no programa, adaptando-o ao debate dos grandes temas da época. Assim procurei tornar a matéria mais atraente e principalmente mais dinâmica. Acho que pegamos o limão imposto e fizemos dele uma limonada.
As aulas foram ficando cada vez mais concorridas. Nos debates comentava-se de tudo, inclusive e principalmente as mazelas políticas, econômicas e sociais do Brasil da época.
Algum tempo depois me desliguei da Uni-Facef, mas não do magistério. Das aulas de EPB restaram saudade e, principalmente, lembranças de ex-alunos, de colegas professores e funcionários. Muitos deles já estão prestando seus relevantes serviços em outra dimensão.
Confesso que manifestei, desde muito pequeno, a vontade de ser advogado. Porém nunca havia pensado em ser professor, mesmo porque era reconhecidamente inibido, tímido mesmo, daqueles que quando tinha de falar o nome em público chegava a perder o fôlego. Com o passar do tempo e com a rotina das aulas fui me desinibindo paulatinamente.
Hoje tenho dúvida se me realizo mais como advogado ou como professor. Acho que vivo em uma bigamia, como o personagem Quequé, o caixeiro viajante da impagável obra de José Condé, muito bem retratada pela Rede Globo na minissérie intitulada Rabo de Saia, protagonizada por Ney Latorraca. Senhor Quequé viveu uma poligamia: foi casado com três mulheres.
Enfim, acabei casando profissionalmente com as duas, com a advocacia e com a docência e o melhor: sou apaixonado pelas duas.
Poder ensinar o pouco que sei às novas gerações, contribuindo ainda que minimamente para a formação jurídica de muitos jovens é extremamente gratificante e prazeroso, mesmo porque, na feliz lição de Richard Bach, ‘Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca
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