Doenças cardíacas


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Viver é muito perigoso, lembrava Guimarães Rosa em seu consagrado livro, Grande Sertão: Veredas. E parece que está ficando cada vez mais, a despeito dos avanços da medicina e de todas as conquistas do espírito, que geraram novas perspectivas de vida e trouxeram mais alegria ao cotidiano.

Segundo levantamento realizado pelo SIM (Sistema de Informação de Mortalidade), ligado ao Ministério da Saúde, as doenças cardíacas mataram 631 pessoas em 2011, 80% mais do que em 2001.

As explicações já são bastante conhecidas. De forma quase consensual, os cardiologistas atribuem esses problemas ao estilo de vida adotado pelas pessoas nessas últimas décadas, apesar dos fatores genéticos que ainda continuam presentes. Um estilo de vida que prima pela vida desregrada, trazendo em sua base uma alimentação pouco nutritiva, o uso excessivo de álcool e cigarros, o sedentarismo e o estresse, fatores bastante conhecidos por boa parte da população que vive a modernidade das cidades.

Esse cenário, no entanto, enseja uma reflexão interessante em relação às transformações experimentadas pela sociedade atual. Por um lado, o desenvolvimento socioeconômico e tecnológico permitiu o aumento da expectativa de vida e, ao mesmo tempo, a melhora da qualidade dessa existência mais longa que boa parte da população veio a experimentar.

Hoje, a maioria dos brasileiros consegue acessar mais facilmente as conquistas na área da saúde, a despeito das diferenças de qualidade que recaem sobre a oferta desses serviços aos mais variados segmentos sociais. Além disso, essa mesma população também passou a praticar mais esportes e a buscar uma vida mais saudável.

No entanto, por outro lado, esse mesmo desenvolvimento acabou cobrando seu preço. Para acessar a tudo isso, em uma sociedade urbana e demasiadamente dinâmica e movimentada, as pessoas passaram a viver no limite extremo de suas possibilidades. Para adquirir tudo que o mundo moderno proporciona, acabaram por exagerar nos gastos facilitados pelo crédito farto. Para honrá-los, precisaram exagerar nas horas trabalhadas, que se tornaram necessárias justamente para arcar com esses gastos, o que veio a gerar um excesso de preocupação, horas mal dormidas, a diminuição do tempo reservado aos exercícios e, por fim, o estresse.

Em função de toda essa correria, também a alimentação acabou prejudicada, pois muitos deixaram de lado aquela refeição nutritivamente balanceada em prol de alimentos rápidos como lanches, salgados e outras guloseimas, todas elas muito calóricas e mais pobres em termos de nutrientes.

Obviamente, o saldo de tudo isso é positivo. Melhoramos a expectativa e a qualidade de vida. De qualquer modo, esses números nos mostram que ainda é necessário um pouco mais de equilíbrio. Se o dinheiro é fundamental para acessar todas essas benesses do mundo moderno, é preciso também tempo para se preparar para essas conquistas, tanto para alcançá-las como para desfrutá-las. Um tempo para o físico e outro para a mente. É uma questão de querer.
 

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