Estamos vivendo o tempo litúrgico da Quaresma. Nela a Igreja nos convida a preparar a celebração da Páscoa que é a maior festa dos cristãos
Foi através da paixão, morte e ressurreição de Jesus que Deus revelou seu amor salvador pela humanidade ontem, hoje e sempre. Durante esse período a Igreja indicará o itinerário que devemos percorrer para experimentar a vida nova que Cristo quer recomeçar em nós e que passa pelo jejum, pela esmola e pela oração.
Hoje celebramos o primeiro domingo da Quaresma. Através da Palavra de Deus vamos entender que Deus não se cansou de nós. Ao contrário, nos concede a oportunidade para “recomeçar a nossa história com o seu coração misericordioso”.
PRIMEIRA LEITURA
A leitura (Gênesis 9) trata do “dilúvio”. O dilúvio, falemos logo claramente, não é um desastre provocado por Deus, é somente o símbolo da ruína terrível que os pecados do homem provocam. Eis o ensinamento central : Deus nunca se conforma diante do mal e sempre intervém para corrigir, para reconstruir, para renovar. Do mal provocado pelo pecado ele sabe fazer surgir uma nova humanidade, à qual promete somente coisas boas e garante todas as suas bênçãos.
Por que Deus decide fazer essa aliança com os homens? O motivo está no fato de que seu amor é completamente gratuito. Deus não espera que o homem seja bom para ser generoso com ele; o encontra infalivelmente pecador, mas assim mesmo o ama, e com o seu amor o transforma em nova criatura. A leitura termina com o sinal do compromisso assumido por Deus: o arco-íris. É um fenômeno natural. A Bíblia se serve da imagem para significar a paz entre o céu e a terra, o abraço entre Deus e o Universo.
SEGUNDA LEITURA
Nesta leitura (1ª Carta de Pedro 3) Pedro retoma a história do dilúvio e dela se serve para explicar aos cristãos do seu tempo os efeitos do Batismo. Noé se salvou das águas do dilúvio por meio de uma arca que Deus lhe ordenara construir. Com ele se salvaram também sua família e animais, para que a criação, libertada do pecado, pudesse recomeçar. A água do batismo produz os mesmo efeitos da água do dilúvio: destrói o homem antigo e faz nascer um homem novo.
O batismo marca o fim do pecado, dos ódios, dos roubos, da embriaguez, dos adultérios, da vida corrupta e faz nascer uma vida nova, segundo o Espírito. Essa renovação é possível porque Cristo, o Justo, morreu uma só vez pelos pecados de todos. É ele que comunica à água do Batismo a força para destruir o pecado dentro de nós, a morte e ressuscitar-nos para uma nova vida.
EVANGELHO
O trecho do evangelho fala das tentações de Cristo no deserto. A narrativa que Marcos nos apresenta (São Marcos 1) é curta: “O Espírito conduziu Jesus no deserto e ele ali permaneceu durante 40 dias tentado por Satanás; estava na companhia dos animais selvagens e os anjos o serviam”.
Há, na vida, tentações que não são instigações para o mal: são as situações que também o homem justo deve enfrentar, são as horas nas quais somos obrigados a fazer escolhas e que se transformam em ocasiões favoráveis para fortalecer a fé. Quem quer crescer, se aperfeiçoar, purificar-se, não pode ser poupado dessas provas. Depois do batismo o Espírito impele o cristão para o deserto da vida, como fez com Jesus. Quer que experimente as alegrias e as dores, os temores e as esperanças dos outros homens; a alegria pelo nascimento de um filho, a ansiedade por uma pessoa amada que está doente, a preocupação pela chuva que não chega... A primeira frase do evangelho, “O Espírito impeliu Jesus no deserto”, não é uma simples informação, mas uma mensagem teológica. Significa que, depois do seu batismo Jesus recebeu a força de Deus (o Espírito) e começou sua luta contra Satanás.
Marcos diz que desde que saiu das águas do rio Jordão, Jesus teve que contrapor-se durante toda a sua vida com propostas que queriam desviá-lo do caminho traçado para ele pelo Pai, propostas que lhe eram dirigidas pelos inimigos, pelo povo e até pelos seus próprios discípulos. Se essa foi a experiência do Mestre, os cristãos nunca devem sentir-se sozinhos. Dentro de si tem o Espírito, que lhe dá forças para superar qualquer prova e, ao lado, tem Jesus, que foi tentado em tudo, como ele. É muito animador para nós, sobretudo quando temos que enfrentar situações particularmente difíceis, lembrar que também Jesus passou por essas provas.
Depois de ter narrado que Jesus foi tentado, Marcos acrescenta dois pormenores muito interessantes: “estava na companhia de animais selvagens e os anjos o serviam”. Marcos, nessa passagem, não narra fatos. Usa linguagem simbólica. Com as figuras dos anjos e dos animais, coloca em contraposição as consequências do pecado de Adão e aquelas da vitória de Jesus sobre o mal. A desobediência do primeiro homem provocou a confusão, a escravidão, a dor, a divisão, a agressividade; a obediência de Jesus deu início a um novo paraíso.
A segunda parte do texto relata, em síntese, toda a pregação de Jesus: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: fazei penitência e crede no evangelho”. É um convite dirigido a todos os homens no começo da Quaresma: o mundo antigo (aquele no qual as pessoas se comportam como animais ferozes) chegou ao fim. Hoje, chegou o momento de mudar o coração e acolher com alegria o mundo novo no qual Jesus já entrou com sua vitória sobre o mal e no qual todos nós devemos nos deixar introduzir, aceitando seu evangelho.
ORAÇÃO
“Que este período da quaresma seja muito santo na vida de cada um com a chance de encontrar-se com o Cristo vivo, Ressuscitado”. Amém.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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