Para o bem ou para o mal, Karl Marx foi sem dúvida um revolucionário. Não participou diretamente de lutas armadas. Fez bem mais que isso. Ele re-volucionou o mundo das idéias. Gostemos ou não, seus estudos sobre a sociedade capitalista foram um divisor de águas na história da humanidade. Seu conceito de sociedade dividida em classes antagônicas se disseminou pelo mundo e praticamente embasou todas as lutas operárias ocorridas durante o século XX, inclusive as que persistem até nossos dias.
Fábio Cândido da Silva, atual pre-sidente do Sindicato dos Sapateiros do Município de Franca, é sem dúvida um exemplo dessa influência. Filho de lavradores, veio para Franca aos 7 anos de idade, quando seus pais resolveram arriscar-se na cidade.
Aprendiz de sapateiro aos 11 anos, conseguiu seu primeiro registro aos 14, na antiga Calçados Roberto. Em termos de estudo, não foi muito longe, apenas conseguiu completar o ginásio. Já nessa época, e mesmo sem nenhum conhe-cimento teórico sobre marxismo ou luta de classes, Fábio afirma que já se revoltava contra os baixos salários e as condições de trabalho que eram oferecidas nas fábricas de calçado de Franca.
Em função desse espírito, foi aos poucos se aproximando do sindicalismo, o que lhe permitiu, em 1982, assumir pela primeira vez a presidência do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Calçadista de Franca.
Nesses mais de 30 anos dedicados à política, Fábio Cândido conheceu momentos de glória e outros de ostracismo. Ganhou o sindicato e também o perdeu. Precisou lutar por seu desmembramento e demorou mais de 15 anos em batalhas jurídicas para conseguir efetivá-lo, como está hoje em dia.
Só não esperava ter que brigar de forma tão violenta contra sua própria classe, o que com certeza nem Marx tinha previsto. Porém, a julgar pelos acontecimentos que agitaram a cidade na última semana, a briga que se iniciou há cerca de 20 anos está se intensificando cada vez mais. Uma briga que, ele mesmo reconhece, tem origem na disputa pelo poder político e sindical da cidade, e também pelo dinheiro que o sindicato arrecada.
Fábio Cândido acusa Paulo Afonso Ribeiro, Sebastião Ronaldo e os diretores do sindicato da rua Padre Anchieta de serem os autores do panfleto apócrifo que foi distribuído nas fábricas e que teria gerado toda a confusão na porta do sindicato da General Carneiro. Os acusados negam.
Fábio Cândido afirma que está sendo ameaçado de morte desde que conseguiu a Carta Sindical que lhe garantiu o direito de representar os “sapateiros” de Franca por meio do sindicato que chama de seu. Agora irá tomar providências mais efetivas para proteger sua vida.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Comércio - O senhor está na indústria calçadista desde criança. Como era o trabalhador naquela época e como era o sindicato?
Fábio Cândido - As condições de trabalho eram muito ruins e o salário bem baixo. Mas, não havia consciência de classe. Os trabalhadores reclamavam, mas não conseguiam se unir. O sindicato [dos sapateiros] não fazia muita coisa, mal havia assembleia.
Comércio - E como o senhor se aproximou da política e do sindicalismo?
Fábio Cândido - Eu tomei consciência dessas questões políticas junto com os estudos na Pastoral. Era o final da ditadura, havia a influência das greves do ABC e nós discutíamos questões relacionadas ao mundo do trabalho e às injustiças que aconteciam com os trabalhadores. Fiquei nesse grupo durante dois anos. Em 1981, participei da fundação do PT em Franca e fui seu primeiro presidente. Depois disso, formamos uma chapa de oposição e acabamos ganhando a direção do sindicato. Aos 27 anos, assumi a presidência.
Comércio - E como foi essa mudança de direção no sindicato?
Fábio Cândido - Nossa principal meta era criar nos trabalhadores uma consciência de classe. Fomos às ruas, fizemos assembleias e alertamos os trabalhadores para a necessidade de lutar por melhores salários e condições de trabalho mais dignas. Em 1983, durante a greve nacional dos trabalhadores, conseguimos que Franca aderisse pela primeira vez. No ano seguinte, durante a campanha salarial, fizemos uma greve de um dia. Mas, como ainda estávamos no final da ditadura, houve repressão por parte da polícia. Houve enfrentamentos, prisões e fábricas foram apedrejadas.
Comércio - O senhor ficou no sindicato até 1988, quando saiu para ser vereador. Por que não voltou depois de cumprido o mandato?
Fábio Cândido - Eu fui o vereador com a votação mais expressiva da história de Franca. Proporcionalmente, minha votação ainda é a maior da cidade. No entanto, fui traído por meus companheiros, principalmente o Jorge Luis Martins e o Toshio Kawamura, que era meu assessor no sindicato. Havíamos combinado que eu sairia candidato a deputado estadual na eleição seguinte, mas eles lançaram o irmão do Jorge, que tinha ficado na presidência do sindicato. Depois trabalharam contra a minha reeleição para a Câmara. Em função disso, houve um racha na diretoria. Tentei montar uma chapa de oposição, consegui uma liminar, mas eles conseguiram cassá-la.
Comércio - Pode-se dizer que o início dessa disputa entre os sindicatos de sapateiros começou nessa época?
Fábio Cândido - Sem dúvida. Em 1994, pedimos um desmembramento do sindicato, o que era permitido desde a Constituição de 1988. Como o sindicato anterior não era apenas dos trabalhadores da indústria calçadista, nós pedimos o desmembramento. Foi uma briga jurídica de 15 anos. Somente em 2009 nós conseguimos a Carta Sindical.
Comércio - E a própria categoria não perdeu com essa briga?
Fábio Cândido - Acredito que não. Na realidade, a categoria já não participava do sindicato da rua Padre Anchieta. Houve, no fundo, uma guerra de tendências, envolvendo principalmente a CUT (Central Única dos Trabalhadores). Depois de 1988, ainda houve outros rachas. Essa, na verdade, foi uma diretoria de rachas, que privilegiou a política e deixou de lado os trabalhadores. Para você ter uma ideia, em 1988, quando eu ainda era presidente, o piso salarial era de 2,5 salários mínimos e eles deixaram isso cair para praticamente um salário mínimo. E eu voltei para tentar recuperar esse salário. Em 2011, nós conseguimos um aumento de 8,5%, o maior dos últimos 5 anos. Agora, em 2012, conseguimos 7,63% para quem ganha acima do piso. Quanto ao piso salarial, conseguimos passá-lo para R$ 751,50, um aumento de 12%, com quase 5% de aumento real. Mas, ainda é o menor piso da cidade.
Comércio - Sobre o tumulto que aconteceu no sindicato durante a semana, referente à contribuição assistencial dos não sindicalizados, o que o senhor pode dizer?
Fábio Cândido - Isso foi uma manipulação desses pelegos da Padre Anchieta, juntamente com o Sindicato dos Condutores. Eles usaram a militância para tentar destruir meu sindicato. Pagaram motoqueiros para distribuírem os panfletos e incitaram as pessoas a se revoltarem contra o sindicato. Inclusive estiveram lá durante a confusão. O Paulo Afonso, o Sebastião Ronaldo, o Geraldo Xavier de Almeida e outros diretores.
Comércio - Essa questão da contribuição não está invertida? Não seria o sindicato que deveria perguntar ao trabalhador se ele quer contribuir em vez de obrigá-lo a se manifestar se não quiser?
Fábio Cândido - Esse dinheiro é usado pelo sindicato para custear a campanha, fazer festas e organizar outros benefícios para os trabalhadores. Pela lei, eles têm o direito de se opor a essa contribuição. Mas a cobrança foi decidida em assembleia e a assembleia é soberana. Se o trabalhador não participou, como muitos hoje não participam, ele não pode reclamar depois. Além do mais, é uma falta de consciência enorme desses trabalhadores que estão protestando, pois meu sindicato conseguiu uma excelente negociação para toda a classe. Para todos. E, se você fizer as contas, esse dinheiro é bem menor do que ele recebe de abono escolar para o filho, por exemplo, uma conquista de nosso sindicato.
Comércio - O prazo para que os trabalhadores manifestassem a oposição à contribuição não foi muito curto? E justamente em uma Quarta-feira de Cinzas?
Fábio Cândido - Nesse ponto, acredito que nós erramos. Não pensávamos que fosse ter tanta gente. Mas isso foi trabalho desse bando de calhordas. No ano passado, não houve problemas.
Comércio - Mas por que toda essa briga? É pelo dinheiro?
Fábio - Também, mas eu acredito que é mais pelo poder. Antes que eu conseguisse voltar, esse pessoal que está aí era hegemônico no sindicalismo de Franca. Tinham poder sindical, político e mexiam também com esse dinheiro. Como isso acabou, eles querem desestabilizar meu sindicato financeiramente. E isso eu não vou permitir.
Comércio - O que o senhor pretende fazer?
Fábio Cândido - Vou tomar todas as providências jurídicas possíveis. Inclusive em relação a minha própria proteção, pois tenho recebido ameaças de morte desde a época em recebi a Carta Sindical. Mas agora elas estão ficando mais recorrentes. Vou fazer um boletim de ocorrência para que alguma investigação possa ser feita. Tenho meus palpites, mas não posso provar quem está fazendo isso.
Comércio - O senhor diz que o sindicato da rua Padre Anchieta já estava esvaziado. De forma geral, o movimento sindicalista não está hoje bastante esvaziado? O seu sindicato também não está esvaziado?
Fábio Cândido - Sem dúvida. Os trabalhadores hoje em dia estão um pouco omissos. Reclamam bastante, mas participam bem pouco. Antes, fazíamos assembleias com cerca de 800 ou até 1.000 pessoas. Hoje, no máximo conseguimos reunir 150 ou 200. Mas a diferença é que o nosso sindicato continua lutando por melhores salários e melhores condições de trabalho para a classe dos sapateiros. Não ficamos no discurso político.
Comércio - E o senhor acha que vai conseguir trazer o salário de volta ao patamar de 2,5 mínimos, mesmo com a concorrência asiática?
Fábio Cândido - A concorrência realmente impacta a indústria calçadista. Mas o calçado francano é de muito boa qualidade e tem plenas condições de enfrentar o calçado chinês ou indiano. Além disso, o governo recentemente tomou uma série de medidas para proteger essa indústria. O problema é que o trabalhador não recebe nada dessa ajuda e ainda acaba servindo como “bode expiatório” para essa questão da concorrência. E os impostos? E o custo Brasil? É preciso recuperar o salário dos sapateiros. É preciso recuperar a dignidade dos sapateiros. Antes as pessoas se orgulhavam de ser sapateiro, hoje quase têm vergonha.
Comércio - Já está faltando mão de obra qualificada em Franca?
Fábio Cândido - Sim, já está. Com esse salário baixo, nenhum jovem se interessa em ser sapateiro. Aquela tradição de pai para filho está acabando...
Comércio - E quanto às leis trabalhistas? Por serem da década de 1940, não estariam ultrapassadas hoje em dia?
Fábio Cândido - Eu sou contra a flexibilização das leis trabalhistas, independentemente da década em que foram criadas. Simplesmente tirar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), sem colocar nada no lugar, é tirar do trabalhador todas as suas conquistas.
Comércio - E essa questão de assédio moral ou sexual dentro das empresas de Franca?
Fábio Cândido - Essa questão é séria em Franca. Há muitos casos que não chegam até a imprensa. Além disso, o assédio sexual ainda se dá em larga escala dentro das empresas. É incrível, mas ainda existem uns chefes babacas que acham que podem “cantar” as companheiras de trabalho. O azar deles é que as mulheres estão mais conscientes e não aceitam mais essas coisas passivamente.
Comércio - E o que o sindicato está fazendo para combater esse tipo de delito?
Fábio Cândido - Nós estamos indo às portas das fábricas, orientamos as mulheres a denunciarem, denunciamos e abrimos processo.
Comércio - E as empresas, como é que se comportam diante de tantas denúncias?
Fábio Cândido - Algumas já estão tomando providências conforme recebem a denúncia, advertindo ou até mesmo demitindo. Outras ainda não fazem nada. Mas os empresários vão ter que compreender que são responsáveis por tudo o que acontece dentro de suas empresas.
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