Em busca do ‘babaca’


| Tempo de leitura: 4 min

O consumo de vodca pura e de vodka com energéticos explode em Franca e produz sequelas

Profissionais de saúde e agentes de segurança com quem venho conversando há algum tempo - não são números oficiais ou conclusivos, mas derivam da observação atenta de quem trabalha com problemas sociais - confessam-se estarrecidos com o alto consumo de vodca que baladeiros contumazes realizam nos finais de semana da cidade: é algo entre 1 e 1,5 litro, per capita, em 72 horas! E há mais: grande parte desse destilado vai ao organismo misturado a energéticos!

Falei, esta semana, com especialista em aparelho digestivo e com o coordenador geral da Pastoral da Sobriedade da Diocese de Franca e ex-delegado distrital de Alcoólicos Anônimos sobre esses números. Chafic Antônio Assis, da Pastoral, foi definitivo: são ‘bebedores inveterados’, segundo classificação do AA. O médico concluiu: do ponto vista científico, são dependentes químicos, sujeitos a todas as sequelas de que disso possam resultar.

A combinação da vodca com os agentes principais dos energéticos - cafeína e taurina - é considerada coquetel de alto poder tóxico. Quem consome energéticos sem regramento dorme cada vez menos e em horários impróprios ao relógio biológico. O que o indivíduo busca, em tese, é manter-se desperto durante suas noitadas; e não sofrer com a timidez, mas há sequelas: irritabilidade extrema, corpo estafado, amnésias lacunares (perda de memória de curto tempo, o famoso ‘branco’), olhos ‘fundos’ marcados por olheiras escuras, dificuldade de fala e de composição de argumentação lógica, dificuldade de manutenção de relacionamentos curtos ou duradouros e, especialmente, desconsideração com direitos e deveres. Sempre falando em tese, o que acabo de descrever não corresponde ao perfil de pessoas e de grupos que se reúnem para ‘curtir’ e, se há o que chama de necessidade, enfrentar quem quer que seja?

Ainda não é tudo. Conversei também com o psicanalista Antônio César Peron, e o que ouvi dele assusta. Compartilho com pais, professores, autoridades e, especialmente, com quem quer se reerguer e os “poucos” que Peron disse que podem, ainda, ter alguma chance.

É O GOZO
Adolescentes vivem corporalmente. As sensações prazerosas é quem contam. É o gozo, é o prazer que se tem que buscar. Não há freio racional. A sedução que a busca do gozo causa conduz ao que Peron chama de “encurtamento da busca”. Ai, passa a valer tudo tudo. O prazer deve se produzir cada vez mais rápido. Então não há que se perder tempo, praticar nenhum freio. Quem está nisso não considera nada que possa desviar sua atenção. Enfrenta a polícia, contesta a lei, agride, subverte normas não porque tenha mais coragem, mas, porque perde a condição moral de diferenciar o que é certo do que é errado.
Para esses desbravadores do prazer, polícia não ensina nada, leis não valem, respeito ao outro, nem pensar. É um enfrentamento tosco, sem razão. É o mesmo contra pai, mãe, irmão, amigo ou inimigo.
O que vem no futuro muito próximo, segundo Peron, é muito triste. “Os jovens estão praticando a clínica do ‘devorar’. Devoram tudo e a todos; até a si próprios, e não se percebem quando se devoram. O prognóstico é sofrível. Só uma parte é que conseguirá sair. A maioria não conseguirá. As últimas tentativas podem conduzir à morte, sempre em busca do gozo”.

‘BABACA’
Considerei soluções com Peron. Ele me disse que “somente para poucos, algo vai cumprir a função de corte e fazer vacilar, repensar”. Peron lembrou-se do psicanalista Jacques Lacan, que afirmou que “alguém só corta movimento compulsivo quando se descobre um ‘babaca’”. Só aí, para. Reposiciona. “Pode ser causado por algo da educação recebida, ou intervenção da polícia, sobrevivência a uma overdose, um sonho ou um projeto, saber que engravidou alguém, mas tudo depende do indivíduo”. Quis referir-se ao perfil que se notabiliza hoje como ‘normal’: ‘o que importa é o gozo e é insuportável não atingi-lo’.
Cenário assustador. Cada um de nós tem que olhar com muita atenção para o lado. Embora o ECA pregue respeito total e absoluto aos direitos do menor, sou de opinião que só o amor duro, comprometido e responsável de pai e mãe para com suas crias, pode fazer diferença. O proble ma está nas ferramentas de prazer inconsequente que o mundo moderno dá a esses aos quais se garantem direitos mas não deveres. Isso vai acabar com eles e destroçar o sentido de humanidade.

BETÃO, DA PREMIX
Humberto Goulart de Figueiredo, o Betão da Premix, morreu no dia 13 deste mês. Tinha um modo especial de ver a vida. Portador de deficiência física, ensinou a quem teve a sorte de conhecê-lo, que deficiência não existe. Existe, isto sim, eficiência. Pregava, e foi, ele próprio, testemunho de sua filosofia: formou-se Relações Públicas na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, tornou-se eficiente administrador e atuou na gerência de compras da Premix conquistando clientes e amigos em igual quantidade. Saudade de seu jeito alegre de contar ‘causos’ e fazer rir até o mais renitente.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários