Deu zebra


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Algumas vezes a derrota injusta, embora doída, acaba marcando mais que uma vitória imerecida. Refiro-me hoje à Seleção Brasileira de Futebol de 1982, comandada por mestre Telê Santana, treinador amante do futebol ofensivo e bem jogado, mas que nem sempre foi bem compreendido pela exigente crônica esportiva brasileira.

A seleção brasileira de 82 saiu desacreditada e foi jogar uma Copa do Mundo em território europeu, solo espanhol.

Após o retumbante sucesso da seleção de 70, o Brasil, já sem Garrincha e Pelé, acabou colecionando duas consecutivas derrotas. Em 1974 foi eliminado para a Holanda, a ‘laranja mecânica’ de Cruyff. Depois, em 1978, perdeu a copa para a Argentina, em uma competição cercada de consistentes denúncias de que a seleção do Peru entregou o jogo à seleção portenha por razões políticas.

Telê escalou o time de 82 com um ‘quadrado mágico’ no meio campo: Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico. Todos sabiam jogar e não havia um único brucutu, na feliz expressão do cronista Alberto Helena, referindo-se a volante sem qualquer recurso técnico.

Depois da seleção do ‘tri’ (1970), a de 82 foi ao meu juízo, a melhor, muito embora eu não tenha elementos para avaliar as de 58 e 62. Não obstante a qualidade do time, a seleção de 82 que só precisava de um empate contra a fraca seleção italiana para passar de fase, acabou derrotada por 3 a 2 em dia de grande inspiração e transpiração do italiano Paolo Rossi. Ele assinalou os 3 gols da Itália.

Foi à única seleção que, embora derrotada, acabou recebendo reverências da maioria do povo brasileiro, da crônica especializada e do reconhecimento mundial.

Paolo Rossi, em recente entrevista, reconheceu que se as duas seleções voltassem a jogar mais nove partidas, possivelmente a italiana não conseguiria mais um único triunfo. Infelizmente aquele foi um jogo fatídico para o futebol ofensivo e bem jogado.

O povo brasileiro e os amantes do bom futebol ficaram desolados. Ninguém conseguiu explicar a improvável derrota. Penso ter ocorrido algo parecido em 1950 quando o Brasil, em pleno Maracanã, perdeu o jogo final para o escrete uruguaio. O inegável é que a seleção de 82 marcou toda uma geração.

Segundo os especialistas, mesmo sem vencer, se inseriu entre as seleções de 58 e 70 como as três mágicas da rica história do futebol brasileiro. Não venceu, mas convenceu, jogando bonito e ofensivamente.

Evidente que a vitória consagraria e coroaria aquele escrete canarinho. Mas os deuses do futebol reservaram outro desfecho, talvez para evidenciar a magia do futebol.

Sim, pois é ele o único esporte em que, nem sempre, o melhor vence. Há 30 anos a seleção de 82 deixou uma lição aos apologistas do futebol de resultado: vencer é muito bom, mas vencer jogando bem é ótimo.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca

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