Trânsito caótico


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Viver em sociedade realmente não é fácil. De certa forma, exige que todos compreendam o significado do contrato social, uma espécie de combinação que limita os direitos e estabelece os deveres de cada membro da sociedade, o que obviamente é um constante desafio para qualquer grupo social.

Acontece que no Brasil, por cerca de 450 anos, o objeto desse contrato foi a vida no campo, ou na roça, como dizemos mais comumente em nossa região. Para se ter uma ideia, em 1950 cerca de 80% de nossa população vivia no campo, segundo o IBGE.

Em função dessa realidade, nos acostumamos aos amplos espaços que se dispunham ao nosso cotidiano. Com mais liberdade, pudemos explorar um pouco mais nossos direitos e nossa individualidade, sem invadir ou prejudicar de forma significativa os espaços e os direitos dos outros. Ao longo do tempo, criamos determinados hábitos e nos acostumamos historicamente a eles, dando contornos mais claros a uma mentalidade que podemos chamar de mais ‘folgada’, e que infelizmente ainda nos acompanha nos dias mais complicados de hoje.

Nesse sentido, mesmo com a rápida urbanização experimentada pelo país nesses últimos 60 anos, é possível dizer que essa mentalidade ainda não conseguiu compreender a nova realidade do mundo das cidades, nem perceber que o novo contrato social exige agora mais atenção aos mínimos detalhes da convivência social, já que todos estão agora mais ‘apertados’ nos limites territoriais das cidades.

O caos no trânsito verificado na frente das escolas nesse período de volta às aulas é um bom exemplo dessa realidade. Muitos pais continuam insistindo em parar em fila dupla à espera da saída de seus filhos. Como se não bastasse esse pequeno delito, outros ainda se arriscam a estacionar em lugares proibidos, tudo para economizar um pouco de tempo, a despeito dos transtornos que essas atitudes possam causar a outras pessoas que nada têm a ver com a escola ou com seus filhos.

Nesses casos específicos, as pessoas parecem agir como se os espaços públicos fossem seus. Talvez até acreditem que o pouco tempo em que estiverem atrapalhando o trânsito não seja um estorvo assim tão significativo. No limite, deixam aflorar sua individualidade como se ainda estivessem nos espaços mais amplos do campo, ou ainda das cidades menores, quando o trânsito ainda não era um problema.

Porém, esses cidadãos se esquecem que as cidades cresceram e o número de carros aumentou, ao contrário das ruas, que se mantiveram do mesmo tamanho. Se todos pensarem dessa maneira, as ruas ficarão interrompidas por um longo tempo, atrapalhando aqueles que precisam delas para seguirem a normalidade de seu cotidiano.

Para coibir esses excessos, é fundamental o diálogo e a educação, os principais motores da mudança comportamental. No entanto, um pouco mais de rigor na fiscalização pode acelerar esse processo.

A sociedade agradece. E as ruas também.
 

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