O famoso “jeitinho brasileiro” está conseguindo driblar as medidas de proteção instituídas pelo governo argentino. Para exportar seus sapatos para o país vizinho e evitar que eles fiquem parados até a liberação, empresas calçadistas de Franca encontraram uma brecha que possibilita a exportação com mais facilidade em troca da importação do mesmo valor em dólares. “É um absurdo. As licenças deveriam ficar pendentes por até 60 dias, mas o prazo está muito superior a isso”, disse o gerente de vendas da Democrata, Anderson Melo, que afirma ter sapatos no estoque da fábrica esperando liberação para a Argentina desde agosto do ano passado.
Por conta disso, a possibilidade de exportar o valor equilvalente ao que é importado daquele país tem atraído empresários francanos. A Democrata tem uma linha especial de sapatos artesanais feita numa pequena fábrica da Argentina, destinada à classe A e com exclusividade para o mercado brasileiro, mas segundo Melo “o número de pares importado é irrisório pelo montante que queremos levar para aquele país”. Agora, a empresa analisa a viabilidade de importar couro argentino. “Temos ainda que estudar o preço, a qualidade, o conceito...”, revelou o gerente.
Dados da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) confirmam a demora e até a não liberação das licenças de importação dos órgãos oficiais portenhos. “O setor calçadista está sendo penalizado há bastante tempo. Temos 2,4 milhões de pares de calçados trancados esperando para entrar na Argentina desde abril de 2011”, informou a Abicalçados.
Durante um ano e meio, as três lojas da Carmen Steffens na Argentina ficaram com o estoque reduzido à espera da liberação das coleções, que eram lançadas sempre com atraso, até que o diretor Mário Spaniol tomou uma decisão. “Há seis meses assinamos um documento com o governo argentino e começamos a importar couro e casacos de couro para cobrir o volume de exportações e prospectar a abertura de mais lojas naquele país”, disse. “Não vejo nenhum outro meio de crescer na Argentina”, completou.
A tolerância do empresário valeu a pena. Neste ano, Spaniol prevê exportar para o país vizinho de US$ 1,5 milhão a US$ 2 milhões, um aumento de 25% em relação a 2011, e ainda abrir mais 12 lojas nos próximos três anos. Os casacos de couro personalizados começarão a ser vendidos nas lojas da Carmen Steffens a partir de março.
Para a Abicalçados, a prática ainda é rara entre os empresários francanos. “Pode ser que daqui a alguns dias isso comece a acontecer”, disse a assessoria.
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