De onde vem a cozinha em nós


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Sem uma fada madrinha, decidi que meu interesse pelas panelas veio da minha avó
Sem uma fada madrinha, decidi que meu interesse pelas panelas veio da minha avó

Com o passar dos anos buscamos saber quem somos. De onde vem esse ou aquele defeito, aquela teimosia, aquele jeito de ficar bravo ou alegre. Daí o olhar para o passado, inevitável.

Em busca de minhas origens, da identificação dos personagens que me doaram uma parte do que são, no todo que me constitui, esbarro numa criatura de pouco mais de um metro e meio que, inclusive, não conheci, nem voz, nem cara. Quando ela morreu, eu era criança, bem criança.

Morávamos no Jardim Brasilân-dia, eu estava na rua brincando so-zinha de rodopiar o vento, quando vi um outro pai meu chegando. Mesma cara, mesmo andar, mesma cabeça achatada. Meu tio chegou-se até mim e perguntou-me onde morava o Domingos, meu pai. Fizera grande esforço para nos localizar para dar ao meu pai, com a nordestina franqueza que lhes é peculiar, a notícia mais triste que já vi meu pai receber:

- Domingos, a mãe morreu.

Naquele dia vi meu pai chorar. Naquele dia descobri que eu tivera uma avó. Pra mim, a fortaleza do meu pai o fizera sem mãe, sem pai, jamais pude imaginá-lo filho de alguém, ele simplesmente brotara na vida como meu pai. Hoje percebo que muito pouco se falou daquela avó em minha casa. Saramago disse que não se fala de corda em casa de enforcado. De certo, quando o filho desconfia da sua conduta, não se fala de avós. E assim o foi até poucos anos atrás, quando um fato parece ter despertado minha avó. Meu pai voltou ao Nordeste e, aos pés do belo túmulo florido de minha avó, se acertou com ela. Minha mãe disse que o túmulo dela é o mais bonito de todo o cemitério. O irmão caçula de meu pai ficou no Nordeste e, para o bem de todos os irmãos, cuidou da mãe em vida e morte.

Descobri que minha avó era detentora de talentos culinários, fazia uma deliciosa carne de porco na lata. Nunca soube que era detentora de uma arte culinária francesa refinada: confitar. Dona Francisca fazia a comida da família, a trancava num quar-tinho e trazia consigo a chave pendurada à cintura. Lá ficavam as preciosas latas, que armazenariam o almoço e o jantar de um longo tempo. Mesmo tendo se casado tão jovem com um homem bem mais velho, mesmo tendo recebido como herança filhos e mais filhos, paridos por ela ou pela falecida primeira mulher de meu avô, soube driblar dificuldades extremas.

Ela tinha o precioso dom de fazer brotar do nada algo bom. Como tinha que se virar com o que as secas mãos do sertão estavam dispostas a dar, Dona Francisca aprendeu a cozinhar quase tudo que se mexia. Sabia fazer pombo, pato selvagem, coelho, preás, tatu, codorna, lagarto, mocós... Assados ou cozidos na banha.

Minha avó detinha o monopólio da divisão da comida segundo seu critério de justiça: come mais quem trabalha mais. Ou, excepcionalmente, quem estivesse debilitado.

Engana-se quem pensa que o sertão é só falta e fome. Penso que aquela região toda não se despovoou ainda porque existem períodos de re-lativa fartura que marejam de espe-ranças os olhos miúdos e cansados dos sertanejos. Além disso, um sentimento de irmandade os une: a seca e a bonança atinge a todos, ricos e pobres, indistintamente, mas isso é assunto pra sociólogo.

A dieta do sertão, nos bons tempos, é boa, capaz de fornecer uma nutrição satisfatória para sustentá-los durante o período de escassez. A base é o milho nas mais diversas combinações e acompanhamentos. Há ainda a utilização do mel como um substituto do açúcar, uma medida de economia que acaba resultando em excelente fonte de energia.

Na falta de uma fada madrinha das panelas, que não há na minha família, decidi que o meu interesse pela co-zinha veio da minha avó Francisca, mulher limpa, enérgica, organizada e boa cozinheira. Faço isso por intuição, porque fatos não os tenho para provar, é minha simples vontade de pertencer. Vontade de dar sentido à vida através da continuidade.

Ela jamais soube de nós, nós só a soubemos depois da morte, ainda assim eu ficaria honrada de levar adiante a vida que minha avó Francisca levou.

Dica da semana

Nós brasileiros, temos uma impressão meio ruim das carnes de caça em geral, incluídas aí as aves de caça também. Não é comum nos servirmos delas para aplacar a fome, exceção feita a regiões que enfrentam secas severas. O Brasil tampouco enfrentou guerras ou frios extremos, épocas em que se come de tudo e até se descobre coisas bem interessantes. Nos-so Brasil varonil, servido de sol o ano inteiro e qua-se todo de terra agricultá-vel, nos dá grande varie-dade de comida e bem à mão, sem grande esforço.

Mas, estudos sérios dão conta do baixo teor de gordura das aves selvagens: menos do que um iogurte natural! Mas, de fato, o sabor é forte e a carne é dura. Portanto, uma boa marinada com um ingrediente ácido ajuda muito a amaciar a carne. Temos excelentes combinações de marinadas para amaciar carnes duras: suco fresco de abacaxi com raspas de li-mão, vinho branco com vi-nagre de cidra e sementes de cominho e canela em rama, vinho tinto e manjerona e alecrim, suco de limão e alho amassado e flocos de pimentão seco. A escolha é pelo gosto.

Ainda assim, há que se atentar para o cozimento, que deverá ser lento e úmido, enrolar a carne com bacon ajuda a manter a umidade e a bela forma da carne. Além disso, se tiver uma panela de fundo du-plo ou triplo você terá um cozimento mais uniforme e bonito. Então, boa caça.

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