Uma das mensagens que chegou no celular de uma comerciante de 38 anos na madrugada de quinta-feira, 16, dizia “agora os demônios vão te pegar... você brincou com eles”. O autor, segundo ela, é seu ex-marido, um vendedor de 42 anos. A comerciante disse que as ameaças avançaram a noite e também foram feitas a seus familiares, mas eles pensavam que o ex-marido dela estava no Paraguai, onde mora atualmente. O dia amanheceu e ela acabou surpreendida na tarde de anteontem com a visita dele na loja de roupas onde trabalha, no Parque das Esmeraldas.
A comerciante disse que ele conversou com ela e depois começou a ofendê-la, na presença de um dos três filhos do casal, o de 9 anos. O ex-marido partiu para a agressão e atingiu a comerciante com socos no estômago, na cabeça e no rosto, além de chutes. “Ele começou a me agredir verbalmente e quando falei que ia chamar a polícia, ele partiu para agressão física, me socando e me chutando.” Esse é o terceiro caso de agressão noticiado pelo Comércio somente nesta semana (leia nesta página). A violência doméstica em Franca continua crescendo. Na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), as denúncias por ameaça e lesão corporal contra mulheres aumentaram 11,5% em um ano. Em 2011 foram registrados 1.646 boletins de ocorrência dessa natureza e 1.476 no ano anterior. Neste ano, desde janeiro até a última quinta-feira já foram 245 ocorrências.
Durante a agressão, a comerciante conseguiu pegar um copo e arremessar contra o ex-marido. Neste momento, ela correu e chamou a polícia. A vítima e o autor da agressão foram levados para o plantão policial e ele preso em flagrante por lesão corporal. Mas, segundo a DDM, ele pagou fiança de R$ 2 mil e foi liberado. “Na delegacia exigi que aplicassem a Lei Maria da Penha porque não tinha cabimento o que fez comigo e do nada. É revoltante saber que está livre.”
A violência deixou marcas. A vítima está com o olho esquerdo roxo, coxa esquerda com hematoma e dores na cabeça e nas costas. Ela precisou ser atendida no Pronto-Socorro “Doutor Janjão”. “A parte pior para mim não são os hematomas com os quais estou hoje, porque vão sair, mas a perseguição dele, que é demais. Ele escreve que vai me matar, acabar com minha família.” Ela alega que o ex-marido faz as ameaças porque não aceita o divórcio dos dois. Eles estão separados há um ano. “Ele fala que minha família apoiou o divórcio e que vai se vingar de todos. Ninguém mais dorme preocupado com ele. Tenho medo que ele cumpra o que fala e eu deixe meus filhos órfãos”, disse ela, chorando.
Os dois ficaram casados durante 15 anos e são pais de três filhos de 16, 14 e 9 anos. Segundo a comerciante, durante o casamento, o ex-marido a agrediu duas vezes. Em agosto do ano passado, já divorciados, ela teria apanhado novamente. “Nas primeiras vezes não denunciei porque não acreditei que fosse acontecer alguma coisa com ele. A família dele tem dinheiro e quem está roxa hoje sou eu e é minha família que vive atormentada.”
Desta vez, ela decidiu denunciar a agressão porque teve medo de acontecer algo pior. “Falei que não podia ficar calada, porque uma hora ele chega e simplesmente me mata. Ele fala tanto que vai fazer isso. Ele não tem limite e precisa acordar para as loucuras que anda fazendo.”
O Comércio entrevistou o comerciante ontem e ele negou que tenha agredido a ex-mulher. “Fui até a loja levar um presente para meu filho que estava lá, ela ficou nervosa e partiu para cima de mim. Ela me jogou copos e pegou uma barra de ferro, nessa hora ela se acertou no olho.”
COMUM
A delegada titular da DDM, Graciela Ambrósio, disse que muitas mulheres têm o comportamento da comerciante. Anos atrás elas não denunciavam os companheiros por medo das ameaças que faziam a elas caso revelassem as agressões à polícia e também por dependência emocional e financeira. Mas hoje elas estão mais conscientes. “As vítimas passaram a denunciar mais as agressões que sofrem por se sentirem mais confiantes e que a lei Maria da Penha é aplicada”, disse Graciela Ambrósio.
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