Quando fazemos um convite para o cafezinho, normalmente desejamos mais do que tomar um bom café. Somos apaixonados por café e fizemos dele um protagonista de peso para um bom papo, para iniciar ou finalizar um negócio ou só botar em dia a fofoca, partilhando com os amigos seu sabor amargo e instigante.
A cerimônia em torno do café não se resume apenas no tomar, está presente ainda mais na preparação. Uma pena que o automatismo dos gestos faça a magia desbotar - porque é linda a maneira como nós preparamos nosso café. Muita coisa se modernizou, mas ainda precisamos da água em fervura e os mesmos grãos torrados e moídos para que a casa toda recenda a amizade.
Durante muito tempo, o café foi uma bebida masculina com vocação de negócios. Surpreendeu-me a informação de que, provavelmente, o café seja a segunda maior indústria do mundo, perdendo apenas para o petróleo em valores. São vendidas cerca de 5 milhões de toneladas de café por ano. Estima-se que, no mundo, o negócio empregue 30 mi-lhões de pessoas - é o prazer de cada cafezinho fazendo um mundo de di-nheiro.
A associação café e negócios, pode-se dizer, começou no século XVI. O Brasil ensaiava os primeiros passos no mundo civilizado, enquanto surgiam as primeiras casas de café pelo mundo. Em 1550, em Constan-tinopla, surgiu a ideia de juntar pessoas poderosas à volta dessa bebida forte e estimulante, com um adicional da época: belos rapazes a entreter os nobres cavalheiros. Em 1650, um turco abriu a primeira casa de café de Londres. Em 1702, foi a vez de Paris: um italiano abriu o famoso Café Procope. Lógico, com tanto pedigree, o negócio foi um sucesso e ajudou a difundir a bebida, que alcançou a corte de Versalhes.
Parece-nos que as casas de café tinham um propósito bastante in-telectualizado e financista. É notável que instituições poderosas tenham se originado desses locais. A bolsa de valores de Londres e a Loyd’s de Londres (mercado de investimento e resseguro) foram precedidas por i-nofensivas casas de café.
Mas a presença maciça dos ho-mens de poder nessas localidades não era uma unanimidade. As damas londrinas da época chegaram ao ponto de adicionar efeitos outros ao café e literalmente reclamar para a Coroa, uma vez que seus maridos passavam tempo demais por lá. A carta dizia o seguinte:
“A petição das mulheres contra o café representando à Consideração Pública as grandes inconveniências acumuladas sobre seu sexo pelo excessivo uso daquele líquido insípido e debilitante. Apresentado ao muito honorável. As defensoras da liberdade de Vênus. Por uma pessoa bem intencionada. Londres, 1674”.
Claro, bem intencionada ou não, tal reclamação não surtiu nenhum efeito. Ao contrário disso, a gigante Companhia das Índias Orientais vislumbrou no café uma grande promessa financeira. Apostou, deu-se bem e fez do café um produto querido em todo o mundo.
Nosso Brasil é hoje o maior plantador de café da Terra, nossas primeiras mudas chegaram por aqui bem ao modo do jeitinho brasileiro. Vieram contrabandeadas em buquês de flores, que a mulher do governador da Guiana entregava a um dos emissários do Imperador do Brasil, com quem mantinha um relacionamento.
O café nos é muito familiar. Convivemos com os pés de café, com as fazendas de café, com os apa-nhadores do café, com o café de coador, com os expressos... O café designado de “Alta Mogiana” é plantado bem aqui, “Yes, nós temos café”. Temos nossas próprias cerejeiras de flores brancas delicadas que cheiram a jasmim, que permitem os cachos verdes que viram amarelos até se di-zerem prontos, explodindo numa cor vermelho cereja, grávidos quase sempre de verdes filhos gêmeos.
Dica da semana
No Brasil, existe uma ode a tudo que se pode fazer levemente queimado. Come-se rapa de arroz, o pão moreno, a torrada quase queimada ou o pudim bem moreninho.
Isso pode parecer bem caipira, mas na verdade é bem “chique” e tradicio-nal. O sabor do alimento levemente queimado é rico em leves amargores que enriquecem a preparação. Este elemento é buscado em inúmeros pratos. Além do sabor, a queima dos açúcares dos alimentos influi também na aparência. Realmente não há comparação entre um doce de leite moreninho e um bran-quinho. E fazê-lo é tão simples como comê-lo.
Use: 2 litros de leite; 400 g de açúcar cristal; 2 colheres (chá) de bicarbo-nato de sódio; 1 colher (chá) de maisena.
Queime uma pequena porção do açúcar em uma panela grande que caiba o dobro do leite que será usado. Quando o caramelo já estiver bem escuro, jogue o leite e o restante do açúcar misturado ao bicarbonato, dissolva tudo muito bem. Deixe ferver e controle a chama para não derramar. Neste ponto, retire um copo de leite e reserve. Após mais ou menos uma hora de cozimento, dissolva a maisena no copo de leite reservado e junte-o ao doce. Deixe cozinhar por mais ou menos meia hora, sem parar de mexer. Agora o “pulo do gato”: desligue o fogo e bata o doce com uma colher até esfriar.
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