Um ‘Rigoletto’ que saiu da África para conquistar espaço em Franca


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TERRA NOSTRA - Vicenzo Dragone na frente de seu estúdio, o Rigoletto, que ganhou o nome de uma ópera de Verdi para enfatizar a origem italiana dos donos
TERRA NOSTRA - Vicenzo Dragone na frente de seu estúdio, o Rigoletto, que ganhou o nome de uma ópera de Verdi para enfatizar a origem italiana dos donos

A saga de Vincenzo Dragone começou longe. Em seus 67 anos de vida, já passou por vários lugares. Aportou em Franca por uma daquelas coincidências bizarras, difíceis de se acreditar. Nascido em Asmara, capital da Eritréia, no nordeste africano, também conhecido como “Chifre da África”, em função de seu formato no mapa, Vicenzo fez uma longa caminhada até tornar-se um dos mais conhecidos fotógrafos de Franca. Com seu Estúdio Rigoletto, montado em parceria com os irmãos, foi responsável por vários registros da história de Franca e de seus habitantes entre o final dos anos 60 e o começo deste século.

Uma história interessante, sem dúvida, que começou em 1935, quando seu pai, Giuseppe Dragone, foi servir como soldado na invasão da Abissínia (atual Etiópia) pela Itália fascista de Mussolini. Terminada a guerra, Giuseppe foi obrigado a ficar mais algum tempo pela região, fixando residência na Eritréia, país que já era dominado pela Itália desde 1890.

No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, e com a derrota do fascismo, a Itália foi perdendo seus territórios. Com consequência, em 1950 a família Dragone foi repatriada para a Itália.

Porém, em um país completamente destruído pela guerra, refazer a vida não era uma tarefa assim tão fácil. Em função disso, Giuseppe partiu para o Uruguai em busca de tempos melhores, deixando a família em uma pequena cidade do interior da Itália.

Em 1953, já estabelecido com administrador de uma fazenda no Uruguai, Giuseppe trouxe toda a família.

“Viemos de navio, alojados em um porão e em condições bem precárias”, se recorda Vincenzo. “Não havia festas, nem italianos alegres cantando, como mostravam algumas cenas daquela antiga novela, Terra Nostra [da Globo], pois a viagem era bem difícil.”

Aos poucos, Giuseppe foi prosperando. Abriu uma pequena empresa de venda de frutas e verduras. O negócio cresceu e em pouco tempo ele o transformou em uma transportadora de cargas e pessoas.

Em 1953, por conta dos negócios de Giuseppe, a família mudou-se para a cidade de Paysandú, no Uruguai, onde ficou por 11 anos. Em função da boa condição financeira da família, Vincenzo e seus irmãos tiveram acesso a uma boa formação escolar.

“Estudei com os Salesianos. Era difícil naquela época, pois se você não aprendesse, acabava apanhando”, diz Vincenzo. “Mas se não fosse essa sólida formação, dificilmente eu teria conseguido acompanhar o curso de Sistemas de Informação que resolvi fazer já mais velho”, complementa.

A IRMÃ FRANCA
Mas, a empresa quebrou em 1966. Sem muitas alternativas, a família Dragone resolveu migrar para o Brasil, aonde já se encontrava Antonio, o irmão mais velho de Vincenzo.

E vieram direto para Franca, que na verdade nem sabiam muito bem onde ficava. É que Antonio, quando chegou ao Brasil, ficou curioso para conhecer a cidade que levava o nome de sua irmã, Franca, que descobriu pesquisando no mapa do Estado de São Paulo. Como trabalhava com vendas, resolveu conhecer a cidade. Em pouco tempo, simpatizou com ela. Fez amigos e aqui acabou ficando.

“Acho que se minha irmã tivesse outro nome eu talvez não estivesse por aqui agora”, brinca Vincenzo.

Como Vincenzo e Antonio já tinham trabalhado com fotografia em uma curta experiência no Rio Grande do Sul, na primeira vez que arriscaram a sorte no Brasil, resolveram enveredar novamente por essa área. Com poucos recursos, montaram então o Studio Rigoletto.

“O nome Rigoletto foi tirado da ópera de Verdi. Foi escolhido para enfatizar nossa origem italiana, porque pelo nosso sotaque meio uruguaio, as pessoas achavam que nós fôssemos argentinos, uma tremenda confusão. Se você disser Dragone, ninguém sabe de quem se trata.”

Por essa época, segundo Vincenzo, Franca só conhecia aqueles fotógrafos clássicos, acostumados apenas com fotos posadas de estúdio, que já estavam ficando obsoletas. Aproveitando-se dessa situação, Vicenzo diz que ele e os irmãos implantaram uma série de inovações. Primeiro, trouxeram o monóculo. Começaram também com as fotos externas, principalmente em festas, batizados e casamentos.

Apesar do sucesso, em 1973 os irmãos resolveram se separar. Cada um seguiu seu caminho e Vincenzo ficou tocando o Estúdio Rigoletto sozinho. Em pouco tempo, tornou-se um dos principais fotógrafos da cidade. Ficou quase 20 anos fotografando para a colunista Patrícia, umas das principais cronistas sociais da cidade, que assina atualmente uma página diária no Comércio da Franca. Criou também sua própria coluna, a Panorama Rigoletto, também no Comércio, na gestão de Alfredo Costa.

Em todo esse tempo de atuação, Vincenzo acabou registrando vários momentos da história social, política e econômica de Franca.

“Registrei a vinda do presidente Costa e Silva, em 1969, eu creio, o único presidente a vir a Franca antes do Lula”, diz, com orgulho, Vincenzo.

Ele conta também que foi o primeiro a revelar uma foto colorida em Franca. Foi também pioneiro com a rotativa de fotocópia, com a máquina de xerox e com a polaroide (máquina que revelava a foto na hora).

Segundo ele, seu estúdio chegou a ser o maior revendedor Fuji e Kodak da cidade. Porém, a partir dos anos 1980, o negócio começou a declinar. Tentou então diversificar os negócios.

“Abri uma cantina com o mesmo nome, Rigoletto, pois a marca já era forte.”

Ao abrir a cantina, obviamente diminuiu a dedicação ao estúdio. Ao dividir-se entre esses dois negócios, acabou por perder o foco e enfraquecer os dois. Chegou a abrir e fechar a cantina Rigoletto cinco vezes. Nunca abandonou o ramo da fotografia, no qual continua até hoje, porém, foi vendo a força de sua marca diminuir cada vez mais.

A FACULDADE
Mas como sempre foi inquieto e “briguento”, Vincenzo não desanimou. Amante da tecnologia, resolveu estudar, depois que o acordo do Mercosul permitiu o reconhecimento de seus estudos no Uruguai.

Com uma bolsa de 80%, concedida pelo reitor da Unifran, ingressou, aos 63 anos de idade, no curso de Sistemas de Informação. Segundo Vincenzo, ninguém acreditava que ele terminaria o curso, o que conseguiu no final do ano passado. Achavam que ele desistiria logo nas primeiras provas.

Porém, enfrentou com determinação todas as dificuldades que se interpuseram em seu caminho. Depois de quase 50 anos distante dos “bancos escolares”, encarou os mais duros problemas de matemática e programação que assustam até mesmo os mais jovens e mais dedicados alunos.

Mesmo sem ser brilhante, chegou ao final. Organizou a formatura e fez questão de convidar um patrono importante, apenas para dar à cerimônia um toque diferente e marcante.

“Convidei o prefeito e ele aceitou prontamente. E me disse que nunca tinha ido porque ninguém nunca o tinha convidado.”

Vincenzo afirma que ele não enfrentou muitos preconceitos durante seu curso, nem de professores, muito menos de alunos.

“É claro que eles estranharam um pouco. Até porque uma pessoa mais velha geralmente faz o curso de direito.”

Para ele, o preconceito maior está na própria sociedade, não dentro da universidade. Ele diz, por exemplo, que não conseguiu fazer estágio. Enviou seu currículo para várias empresas, mas nem obteve resposta.

Hoje, também, já formado, sabe que dificilmente conseguirá emprego em alguma empresa da área, não por conta de sua capacidade, mas apenas pela idade.

“Eu aceito essa realidade, sem problemas. Só não vou desistir da batalha. Se o mar não está para peixe, é preciso mergulhar em águas mais profundas para achar o cardume.”

Para sobreviver, atualmente, Vincenzo continua com seus trabalhos de fotografia e já chegou a fazer um projeto para uma empresa de cosméticos de Franca. Para o futuro, se ainda estiver com a excelente saúde que tem, pretende inscrever-se para o vestibular do curso de Relações Internacionais da Unesp de Franca. 

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