Mais que triste, a matemática desse último confronto entre jovens francanos e a polícia de nossa cidade assombra pelo tamanho de seus números. De um lado, aproximadamente 1,5 mil jovens armados com pedras e garrafas, um contingente de fazer inveja a muitos batalhões que se digladiavam em guerras passadas. De outro, 15 viaturas da PM, com soldados precisando se valer de balas de borracha e gás lacrimogênio.
Para uma cidade que até pouco tempo atrás ainda carregava aquela ‘alma’ pacata de cidade do interior, aonde as portas se abriam com mais facilidade, sem o temor do roubo, da invasão ou da violência, realmente esses números se tornam bastante alarmantes.
No entanto, mais que a concretude das consequências desse vandalismo, é o simbolismo dessas ações que mais incomoda, desafiando nossa compreensão sobre o que estaria acontecendo em nossa sociedade. Como entender a presença de crianças de 10 anos nesses confrontos inúteis e sem finalidade, sobretudo em um horário em que já deveriam estar sonhando em suas camas? Como entender que jovens deixem de lado sua paixão pela vida, seus sonhos românticos e suas inquietações com o futuro para concentrar toda a sua adrenalina em um combate de rua, desafiando normas e autoridades, como se fosse um filme ou seriado de televisão?
É difícil entender. Em função disso, sobram incredulidade e acusações. Um pouco desorientados, tanto autoridades como a própria sociedade civil acabam se voltando para a busca de culpados, algo infelizmente bastante natural em uma cultura que sempre preferiu a punição em detrimento das soluções.
Na atual conjuntura, os olhos parecem voltar-se para os pais. Eles seriam os ‘vilões’, pois não estariam cuidando de seus filhos como deveriam. Em função disso, e no calor da comoção momentânea, as possíveis soluções convergem para retaliações contra esses pais, como a aplicação de multas, por exemplo.
De fato, os pais são responsáveis pelos filhos. Não há o que se questionar sob esse aspecto. Mas, seja por questões financeiras, por desequilíbrios no interior da própria família ou por até mesmo irresponsabilidade, boa parte deles acaba descuidando da educação dos filhos. Responsabilizá-los pelos atos delinquentes de seus filhos talvez consiga, em um primeiro momento, conduzi-los de volta ao papel de pais. Outros tantos pais precisam de respaldo para fazer valer sua responsabilidade. E a punição sobre o jovem desordeiro e baderneiro também não pode ser perdida de vista. Um pouco mais de rigor por parte da polícia e do poder judiciário talvez também venha a ajudar nesse momento em que os nervos estão à flor da pele. Claro que é importante que não nos esqueçamos do longo prazo. Esses transtornos também têm relação com a sociedade que estamos construindo, ainda muito desigual e atualmente muito hedonista, voltada prioritariamente para o consumo e mais preocupada com o ter do que com o ser. É bom pensarmos nisso. Do contrário, esses enfrentamentos poderão reproduzir-se com mais frequência, a despeito dos rigores e das culpas de momento.
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