Falava, falava e falava, gesticulando muito. E ele, cabeça baixa,ouvia e ouvia, balançando-a em negativas :
- Não acredito. Não acredito.
A voz colérica continuava entre chuvas de perdigotos, entrava em detalhes minuciosos. E ele contraía o cenho, cabeça baixa, sem parar com as negativas:
- Não acredito. Mas que cafajeste. Quem diria. Juro que não acredito.
A voz colérica sarcástica, acompanhando os passos que iam e vinham, a mão fechada esmurrando a palma da outra. Falava, falava, a rouquidão chegava no atropelo delas. E a cabeça baixa ouvia e ouvia. Parou com as negativas, respirou, chegou à conclusão:
- Vamos dar uma lição definitiva no miserável.
Foram. Subiram e desceram ruas. A cabeça retornou às negativas:
- Deixe comigo. Safado. Não acredito.
A cabeça girou sobre o ombro, olhos surpresos:
- Lá está ele. Vai atravessar a rua.
Aproximaram-se do homem bem vestido na ponta da calçada, entre o grupo de transeuntes. A cabeça firmou-se e a perna, rápida, levantou o pé e jogou-o na frente do ônibus, que não conseguiu parar e buzinou aflitivamente.
Perderam-se na multidão e as exclamações ganharam o céu:
- Oh!!!
A cabeça, resoluta, olhava em frente:
- Agora disfarça. Vá para lá e eu vou para cá.
Balançou-a numa última negativa:
- Depois saberemos do estrago.
E eclipsaram-se em sentidos opostos.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.