O sofrimento humano


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Jó trata do problema que causa grande angústia aos homens de todos os tempos: por que há tantos que sofrem?

Há ainda outra constatação que causa uma extrema perplexidade para quem acredita na justiça e na providência de Deus: acontece frequentemente que, enquanto o justo e o inocente passam por sofrimentos, o malvado tripudia em conquistas, multiplica suas riquezas, desfruta de ótimo estado de saúde.

A história de Jó foi escrita para projetar raio de luz sobre esse enigma. Ele é um servo de Deus, que vive rico e feliz num distante país do Oriente; é bondoso, generoso, fiel ao Senhor, mas, repentinamente, tombam sobre ele as maiores desgraças: perde os filhos e a fortuna e é golpeado por uma doença dolorosa e repugnante. Até sua própria esposa sente-se mal ao se aproximar dele.

PRIMEIRA LEITURA
A leitura de hoje apresenta reflexões sobre a infeliz situação do homem na Terra. A sua dramática experiência é para ele uma confirmação de que a vida não passa de um mar de sofrimentos. Quando reflete sobre sua vida sente-se mais infeliz do que um escravo. Ao se comparar, acha que esses são privilegiados: pelo menos durante a noite podem descansar de suas fadigas. Ele, ao invés, nem sabe se o sono lhe poderá dar algum alívio.
Jó não é um homem resignado, não sofre em silêncio, desabafa a sua dor diante do Senhor, tem até mesmo a ousadia de lhe cobrar pelas desditas que é obrigado a suportar. Seu grito de censura talvez nos assuste, parece rebeldia, blasfêmia. Mas é, ao invés, uma oração, composta de gritos e lágrimas. Não esqueçamos; quem grita e chora, embora não o saiba, está invocando a Deus.

SEGUNDA LEITURA
O melhor serviço que podemos prestar a um homem é o de lhe anunciar o evangelho. A palavra de Deus transforma o coração, dá um novo sentido à vida, comunica a alegria de viver e infunde paz sem limites. Os que se dedicam ao apostolado, portanto, exercem um trabalho muito envolvente e, não sendo anjos, também precisam... comer! Eis então o problema: Quem deve se preocupar com a sua manutenção? Para solucionar, Paulo, na leitura de hoje ( I Cor 9), afirma que, às vezes, quem anuncia o evangelho deve estar disposto também a renunciar a seu direito de ser sustentado. Esta decisão deve ser tomada quando se apresenta o perigo de suspeitas de que a pregação esteja sendo feita por interesses materiais. Paulo e Barnabé deram exemplo de desprendimento total: providenciaram o próprio sustento trabalhando com suas próprias mãos, dedicando o restante do tempo para a pregação.
A leitura é um lembrete para todos os que se dedicam em tempo integral à pregação do evangelho, a fim de que reexaminem o próprio estilo de vida. Devem questionar-se para saber se alguém se escandaliza por causa de pouca transparência no uso do dinheiro. Os que, como Paulo, desejam servir de forma completamente gratuita, que recompensa terão? Nenhuma, exceto a satisfação que brota da doação generosa de si mesmo em favor dos irmãos, em prejuízo material pleno, sem esperar nada em troca. Paulo prega não para obter vantagens, mas por necessidade interior do seu coração. É tão profunda a sua convicção sobre a sublimidade do dom recebido, que se sente impelido a comunicá-lo aos outros.

EVANGELHO
Antes de Cristo os homens tentaram encontrar solução para o problema da dor, sem conseguir. No evangelho de hoje (Mc 1), Jesus dá uma primeira e inquestionável resposta: o mal existe, mas não é invencível. Pode e deve ser derrotado. Domingo passado, Marcos nos fez meditar sobre o primeiro milagre realizado por Jesus em Cafarnaum. Hoje nos apresenta seu primeiro encontro com a miséria humana: saindo da sinagoga, entra na casa e encontra a sogra de Simão, que está acamada, com febre. Na entrada da noite são-lhe apresentados todos os doentes e possuídos pelo demônio. Na manhã seguinte levanta-se e se afasta para um lugar deserto para rezar e depois se põe a caminho para visitar outras aldeias da Galiléia. Sabe que em todos os lugares há pessoas necessitadas da sua ajuda.
A única atitude a ser assumida é a de colocar-se ao lado de quem sofre e lutar com todas as próprias forças contra o mal. A missão do cristão dos nossos dias é a de repetir os gestos do Mestre; aproximar-se daqueles que não têm forças para manter-se de pé e erguê-los da condição desumana na qual se encontram.
Quem vivenciou a experiência da libertação, não pode esquecer o milagre que a palavra de Deus operou nele e deve transformar-se num membro dinâmico da comunidade. Deve tornar-se disponível para que outros necessitados de apoio passem pela mesma experiência de cura.
Jesus não ensinou aos seus discípulos a fórmula para operar milagres. Ele mesmo não resolveu todos os problemas dos homens do seu tempo, mas limitou-se a realizar alguns gestos significativos para dar a entender, sobretudo, que Deus não aceita as situações nas quais o homem sofre, em que é submetido à opressão e à marginalização. Está ao lado de todos aqueles que não se conformam com a miséria humana. Ao curar os doentes, Jesus revela que, com a sua vinda, começou um mundo novo do qual será eliminada qualquer forma de dor. O reino do mal já começou a ser combatido e derrotado.
Os problemas do homem neste mundo não podem ser resolvidos na sua totalidade. “Os pobres, sempre os tereis convosco”, disse ele um dia. O mundo sem inquietações, sem doenças, sem morte, não é este mundo atual, mas o futuro. Aqui, nem todos os enigmas podem ser desvendados, nem o mal pode ser vencido. Somente a oração pode nos iluminar sobre o sentido da dor. A verdadeira oração não é fuga dos problemas, não é uma simplória solicitação de milagres. É um encontro com Deus que nos permite enxergar o homem e os seus problemas como ele os vê.

José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br

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