Avenida Champagnat: Sim, bebê, ainda é dia de rock em Franca!


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CARA DE MAL -  Galera do metal no CDA: William Fontelas (à esq.), Márcio Tadeu (Bolão) e Daniel Vanconcelos (Dani Magoo); acima, Malu Paulino, Cairo César e Leandro Maranha
CARA DE MAL - Galera do metal no CDA: William Fontelas (à esq.), Márcio Tadeu (Bolão) e Daniel Vanconcelos (Dani Magoo); acima, Malu Paulino, Cairo César e Leandro Maranha

Passar pelo fim da avenida Champagnat, principalmente nas noites de sexta-feira e sábado, e não ver a galera do metal é quase impossível. Primeiro, porque eles não passam despercebidos com seus cabelos compridos, roupas pretas - camisetas de bandas, na maioria das vezes -, jaquetas ou colete de couro, coturno nos pés e cara de mal. Segundo, porque centenas deles ficam por ali, geralmente sentados nas cadeiras do bar CDA 31 (Caveiras de Aço) ou sobre as gigantes motos que estacionam sobre a calçada.

O cenário descrito acima, que, à primeira vista, pode assustar, nada mais é do que a maneira que esse pessoal tem de deixar clara sua paixão pelo rock’n roll. Com idades e profissões bem diversificadas, se concentram no único lugar de Franca destinado a esse público. Se não estiverem no CDA no final de semana, é provável que estejam viajando para assistir a algum show, ou mesmo se apresentando em alguma outra cidade, já que muitos vivem da música que amam.

É o caso de Daniel Vasconcelos Querino, o Dani Magoo, 32, que, além de dar aulas de técnica vocal, tem três bandas: Mr. Magoo, Gloom e Os cara du Rock. Roqueiro desde os 10 anos, sua história com este mundo começou por intermédio de um amigo que mostrou a ele, ainda em VHS, um show dos britânicos do heavy metal Iron Maiden. De lá para cá, mergulhou nesse universo, pesquisou, estudou, aprendeu a cantar e a tocar guitarra e hoje ensina isso a outros.

Sem muita cara de roqueiro, o músico faz questão de explicar que somente há três semanas perdeu sua principal característica, os longos cabelos que cultivou por mais de 20 anos. Cortou, diz, porque a genética mandou (tradução: os cabelos estão caindo).

Como os sertanejos, os pagodeiros ou qualquer outra turma que se vista ou tenha atitudes diferente da maioria, os roqueiros também sofrem preconceito. Muitas vezes, dentro da própria família. A de Daniel, por exemplo, demorou a aceitar o seu estilo. “O preconceito existe, mas, se você se respeitar, as pessoas consequentemente vão fazer isso também. Em casa só aceitaram, de fato, quando o rock passou a pagar minhas contas. Hoje está tudo certo”, afirma.

Leandro Maranha, 24, não sobrevive de música. Ele é protético, mas toca contrabaixo há 10 anos. Não tem os cabelos longos, mas, como a maioria dos roqueiros, já cultivou uma cabeleira. Apesar disso, é só olhar para ele para ter certeza de que se trata de um roqueiro. “Cheguei por acaso aqui quando ganhei um vale CD e troquei por um do Metallica, escolhido pela capa.”

A história de como começaram a ouvir rock é sempre parecida: o som foi apresentado por amigos. Da mesma forma, acabam levando mais gente ao metal. “As pessoas têm uma visão diferente de quem nós realmente somos. Às vezes nos julgam pelas roupas e pelo cabelo, mas, quando conhecem de verdade nossa música, o CDA e o pessoal aqui percebem que não tem nada de mal, que somos do bem”, diz Maranha.

Os cabelos brancos - e longos -do agente de turismo Márcio Tadeu Evaristo, de 43 anos, denunciam seu gosto musical. Roqueiro desde os 14 anos, ele já assistiu a mais de 300 shows pelo Brasil, o mais marcante, no festival Rock in Rio, em 1985, onde se apresentaram, entre outras bandas, Queen e Iron Maiden. Neste ano, ele se prepara para participar, em agosto, do festival que é considerado o maior do mundo: o Wacken Open Air, na Alemanha. O evento acontece entre os dias 2 e 4 de agosto e tem até agora mais de 70 bandas confirmadas.

Nessa turma de cabeludos e ex-cabeludos há ainda um professor de matemática: Cairo César Souza Silva, 25. Pelos cachos, ele já foi confundido muitas vezes com docente de outra matéria: história. Entre os entrevistados, ele é o “caçula” do rock: passou a ouvir esse tipo de música há apenas cinco anos. Há quatro anos cultiva a cabeleira.

“Quando passei no concurso público para ser professor da rede estadual, comecei a deixar o cabelo crescer. O preconceito que o pessoal diz que sofre, eu não percebo. Vejo que as pessoas têm curiosidade, querem conhecer esse nosso mundinho, mas ninguém me olha torto.”

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