Sete horas em ponto a sirene soa no canteiro de obras do Condomínio Franca Garden para mais um dia de trabalho, que se estende até as 17h. Para os motoristas e pedestres que passam apressados pelas avenidas Santa Cruz, Ismael Alonso Y Alonso e Alagoas é difícil imaginar que atrás dos muros 250 pessoas (em alguns dias, até 350) entre 18 anos e 40 anos estão construindo uma minicidade.
O condomínio, maior obra em andamento em Franca, terá 44 blocos de quatro andares com 1.408 apartamentos, que deverão abrigar mais de 5 mil moradores, o equivalente à população de Ribeirão Corrente.
As obras da MRV Engenharia, construtora responsável pelo empreendimento, transformam o terreno de mais de cem mil metros quadrados numa verdadeira fábrica. Os funcionários têm cartão de ponto, trabalham nove horas diárias e têm direito a uma hora de almoço. O esquema de produção em série permite agilidade no andamento das obras e evita desperdício de materiais.
Na central de betoneiras, por exemplo, dez máquinas trabalham o dia inteiro no preparo de massas para rebocar os prédios, assentar tijolos e pisos. Na central de armação, uma equipe se encarrega de preparar as ferragens para o esqueleto que dará forma à minicidade. Caminhões, tratores e empilhadeiras agilizam o transporte de materiais pela extensa área. Nos dias de chuva, os tratores são usados também para amenizar os transtornos com o lamaçal formado no terreno.
Há obras em todos os estágios. Alguns blocos estão na etapa de fundação, enquanto outros já estão próximos da conclusão, com previsão de entrega para os próximos meses. Trabalham juntos pedreiros, encanadores, pintores, eletricistas, gesseiros, maquinistas e outros.
O canteiro de obras reúne diferentes sotaques. Dos 250 funcionários, 120 são francanos. Os outros vieram de cidades da região como São José da Bela Vista, Restinga e Cássia (MG) ou são “importados” de Estados nordestinos como Bahia, Piauí e Ceará. “Uma das vantagens de contratar profissionais vindos do Nordeste é a disposição que eles têm. Eles vêm muito focados no trabalho e isso faz uma grande diferença no resultado”, disse o engenheiro civil Lúcio Limonti Taveira, um dos responsáveis pela obra.
O pedreiro Rafael Soares de Araújo, 18, é um dos cearenses empenhados em construir no Sudeste uma vida melhor. Ele deixou São Raimundo com os três irmãos de 32, 28 e 21 anos e viajou dois dias inteiros para chegar ao Estado de São Paulo. Os quatro estão hospedados numa pensão no Centro, paga pelo empregador. Trabalham no Franca Garden junto com cerca de 50 conterrâneos. “Aqui é ótimo para conseguir emprego. Lá não tinha emprego direto, aqui é mais concorrido. Ganho no mínimo R$ 2 mil por mês. Lá no Ceará tirava a metade disso”, disse Rafael.
O cearense já trabalhou em outras obras em cidades paulistas, como Aricanduva e Ribeirão Preto, e pretende ficar mais sete meses em Franca antes de regressar a sua cidade para passar uma temporada com os familiares.
Rafael costuma dizer que levanta as paredes de forma “ligeira”, usando uma técnica de agilizar a construção que trouxe do Ceará. Ele utiliza um filete de madeira no lugar da colher de pedreiro para espalhar o cimento nos blocos de concreto. “Consigo passar a massa em dois blocos de uma vez, enquanto que com a colher conseguiria passar só em meio bloco. Também gasta menos material.”
Mulheres também trabalham na construção do supercondomínio (leia texto nesta página).
TERCEIRIZADAS
A MRV trabalha com equipe própria e terceiriza uma parte dos serviços. Funcionários vindos de outras cidades ficam em casas alugadas, que são transformadas em alojamentos. O empreiteiro Paulo César Cruz, encarregado geral da empresa BA da Silva Construções, de Franca, é um dos contratados pela construtora. Dos 17 funcionários que mantém, 12 trabalham no Franca Garden na parte de alvenaria, pintura, revestimento e reboco. A faixa salarial dos contratados varia de R$ 2,7 mil a R$ 3,5 mil, segundo Paulo César. “É raro um pedreiro, um pintor tirar menos de R$ 2 mil.”
A construção do Franca Garden começou em 2009. A previsão é concluir tudo no fim do ano que vem. Os apartamentos de um dormitório custam R$ 71 mil e os de dois dormitórios, sendo uma suíte, R$ 92 mil.
A obra do condomínio chegou a ser embargada no ano passado. O Ministério Público acusou a MRV de construir em área de preservação permanente, mas, em junho, as duas partes assinaram um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) e os serviços foram retomados. No acordo, a MRV se comprometeu a fazer estudos hidrogeológicos no empreendimento e reflorestar uma área de 1,23 hectares, além de pagar uma indenização de R$ 200 mil por danos urbanísticos e ambientais.
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