Segundo a Bíblia, mais especificamente o livro dos Gênesis, Deus disse ao homem e à mulher: “crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais que se movem na terra”.
Ana Maria Ramos, de 75 anos, e Luiz Cândido Ferreira, de 85, captaram muito bem a mensagem. Não se preocuparam em sujeitar a Terra, muito menos em dominar os animais. Concentraram-se apenas no principal: “crescei e multiplicai-vos”.
E o fizeram acima de qualquer estatística, desafiando de forma contundente até mesmo aquelas que vigoravam entre nos anos de 1940 e 1960, que apresentavam uma média de seis filhos para cada mulher, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O que dizer então das de hoje, que mostram a mulher brasileira com apenas 1,86 filho por mulher, em média?
Com uma desenvoltura e naturalidade surpreendentes, os lavradores Ana Maria e Luiz Cândido tiveram 25 filhos. Isso mesmo, caro leitor! Não há nenhum erro de digitação nessas palavras, como seria mais natural acreditar. Foram 25 filhos (20 mulheres), dos quais 17 ainda estão vivos. Todos nasceram de parto normal e sem qualquer vínculo com preceitos ou doutrinas religiosas.
“Eu até xingava quando descobria que estava grávida”, lembra, sorrindo, Ana Maria, que obviamente não tinha acesso a anticoncepcionais, mas tampouco fugia à responsabilidade que lhe caía sobre os ombros.
E tudo isso sem contar um último que viria mais ou menos em 1985, e que teria a idade de alguns de seus netos, caso ela não tivesse sofrido uma queda, que acabou provocando um aborto.
Já acostumada às brincadeiras que vem enfrentando ao longo de sua vida, Ana Maria brinca que, naquela época, não tinha rádio nem televisão e que a única diversão era fazer filho.
Durante os 61 anos em que está junto, o casal viu a família multiplicar-se. Com 101 netos, 25 bisnetos e um tataraneto a caminho, formam um grupo difícil de se reunir em uma casa comum, a despeito de qualquer padrão socioeconômico. Se somados aos genros e noras, aos maridos e mulheres de netos e bisnetos, é possível se imaginar um público bastante considerável, capaz de animar alguns jogos mais mornos da Francana. Se pensado em termos de eleitorado, com certeza formam um agrupamento capaz de influenciar fortemente as eleições municipais de uma cidade como Itirapuã, local onde moram atualmente.
“Meu sonho é um dia conseguir reunir em uma única foto toda essa minha família”, diz um sorridente Luiz.
TEMPOS DUROS
Mas se hoje Luiz e Ana Maria vivem mais tranquilamente, com uma pequena folga orçamentária na vida simples que levam, graças a Getúlio Vargas e suas leis trabalhistas - como gosta de lembrar Luiz -, o restante de suas vidas foi uma constante de desafios, persistência e provações. Afinal, por mais de 30 anos, tiveram que alimentar muitas bocas, além de vestir e cuidar.
O comecinho até que não foi tão ruim, como são sempre aqueles tempos em que a alegria e o dinamismo da juventude prevalecem sobre as agruras da vida. Mas eram os tempos em que se conheceram na roça, lá para os lados das mineiras Boa Esperança e Campos Gerais, onde o pai de Luiz tinha um pequeno sítio. Luiz ia a cavalo visitar sua amada. Mas foram visitas de curta duração.
“O pai era bravo e não queria muito rolo, não senhor”, diz ela. Em seis meses já estavam casados. Ela tinha 14 anos e ele 24. Viveram os primeiros tempos no sítio de Luiz, onde ele trabalhava a terra junto com seu pai e seu irmão. Aos 16 anos, Ana Maria teve seu primeiro filho. Era uma menina, a primeira das vinte. Até os 23 anos, quando tentaram a sorte em Capetinga, já tinham nascido mais quatro.
Porém, essa tentativa de mudança iria custar caro ao casal. Na simplicidade de homem honesto do campo, Luiz entregou a seu pai todas as suas economias. A idéia era comprar uma fazenda maior, para que todos pudessem nela trabalhar.
Seu pai, porém, foi enganado. Como naquela época os negócios aconteciam mais na confiança do “fio do bigode” do que nas escrituras cartoriais, eles perderam tudo. Luiz não consegue explicar direito o que aconteceu, mas o fato é que os 25 mil réis, dinheiro suficiente para comprar uma casa, e fruto de muito suor ao cabo de uma enxada, desapareceram de repente.
Foram momentos difíceis, recorda Ana Maria. “Passamos muitas necessidades, pois não tínhamos dinheiro para nada.” Eles chegaram a passar fome. Luiz tinha que trabalhar todos os dias, inclusive aos domingos. “Ele trabalhava ajudando os outros em alguma obra ou qualquer outra coisa que estivessem fazendo. Não cobrava nada, mas acabava ganhando mantimentos que eram importantes para nós”, conta a doméstica Rosana, uma das filhas do casal.
Ana Maria recorda que, por essa época, perderam quatro filhos, todos em um mesmo ano, vitimados por doenças que deixavam transparecer a vida difícil que eles passaram a enfrentar. Seu Luiz se desesperou e até tentou colocar fogo na casa e acabar com tudo. “Os vizinhos ajudaram a segurá-lo”, lembra Ana Maria.
Ana Maria se recorda de um dia em que acabou chorando de vergonha. Uma de suas filhas que veio a falecer estava muito fraca e ela não tinha nada para dar a ela. Foi então pedir um copo de leite para uma senhora, mulher de um dentista, em Capetinga. Foi muito bem recebida, é verdade, mas isso não lhe abrandou a vergonha e nem conseguiu impedir suas lágrimas, nem muito menos a morte da menina.
Porém, se sobrava tristeza de um lado, havia também muita dignidade e firmeza por outro. Ana Maria era dura com as crianças. Nada de avançar nas mesas de comida em aniversários ou outras festas. A ordem era esperar pela dona da casa. Se necessário, Ana Maria tinha sempre umas palmadas à disposição. Ela era brava, determinada e diz que não levava desaforo para casa.
“Certa vez, a dona de uma loja de roupa se espantou com a quantidade de filhos que eu tinha. E eu respondi perguntando se ela cuidava de algum deles”, disse Ana Maria, com um sorriso.
FRANCA
De qualquer forma, em função do aperto que a família passava em Capetinga, Luiz resolveu vir para Franca. Alguns filhos já estavam crescidos e poderiam conseguir um trabalho com mais facilidade. E de fato a vida começou a melhorar. É claro que muitos ajudaram, pois, se para uma família de posses não é fácil criar essa quantidade de filhos, imaginem para uma família de lavradores que perdeu tudo?
Luiz lembra especialmente do Aparecido, do supermercado São Paulo, que muito o ajudou nessa caminhada. “Quando a gente ia ao supermercado, acabava voltando com um monte de verdura e legumes para casa”, diz ele.
Nesses tempos difíceis, Rosana lembra que os aniversários eram ocasiões especiais, dignas de uma galinha morta por Ana Maria, e o pedaço nobre que cabia a Luis era sempre direcionado ao aniversariante.
Hoje, com bodas de jade já comemoradas (60 anos de união), Ana Maria e Luiz Cândido levam a vida com mais paz e tranquilidade. Na simplicidade de pessoas humildes, sem diplomas ou escolaridade, acabam por esbanjar sabedoria nos sorrisos castigados pelo tempo.
E não é para menos. Dos 25 filhos, não fizeram nenhum doutor, mas não abandonaram nenhum. Não deixaram na porta de ninguém, nem deram para adoção. Assumiram o que fizeram, com firmeza e determinação, um belo exemplo para os dias de hoje, para pais que, às vezes, se desesperam diante de um simples choro de filho único.
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