Desabamentos


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Às vezes eu desabo com as notícias que vejo nos jornais. Tento ciscar, no meio de acidentes, assassinatos, denúncias as mais variadas, da corrupção aos atentados à saúde mental, algo de bom e belo, claro e simples. Não é fácil. Tento viver a vida (em intervalos), quando consigo, imitando as árvores, os bichos, os minerais. Busco, ao me assumir humana, um caminho, trilha, ponte, pinguela, uma vereda para a terra de Oz, ou para Pasárgada, qualquer lugar imaginário de onde eu possa retornar (vital poder retornar) mais forte e ágil para enfrentar as ruínas da menina que fui, as ferrugens acumuladas nas janelas do meu quarto de adolescente.

Preciso, ao retornar mais vitalizada e inteira, retomar as contínuas reformas, lutar pelo tombamentos histórico das ideias que quero continuar zelando, para o meu bem e para a minha Consciência, patrimônio delicado e difícil de manter, nos dias de hoje.

Acompanhando, pela TV, o inesperado desabar de edifícios no Rio de Janeiro, ao lado do nosso Teatro Municipal, ouvi, de um senhor dono de uma Livraria que funcionava no térreo de um daqueles moídos pelo estranho sinistro, algumas palavras que, no meio do Terrível, fizeram uma clareira no meu sentir, no meu ouvir-ver.

O repórter, conduzindo o livreiro ao local em que não está mais a Livraria, perguntou: e agora? O que sente ao ver esta cena, ao ver o que não está mais ali? Ele, muito calmo, talvez em estado de choque, voz pausada e reticente, como quem tira as palavras do estômago, responde: “nada!... Não sinto nada!... Um vazio!... É para se ver que desta vida a gente só leva o que se vive”.

Em contraste com o meio esfumaçado e mortífero, estas palavras, ditas no local, em tempo real, por quem sofreu dura perda, e, quiçá, irá lamentar a ausência permanente de pessoas anônimas ou conhecidas, que via rotineiramente no seu dia-a-dia, formaram uma pinguela para que eu quisesse visitar o País dos Valores Permanentes e Imprescindíveis, onde penhorei suadas e caras construções da minha Consciência (às vezes frágeis e sujeitas a desabamentos inesperados).

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