Bel e os cachorros


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Durante os mais de vinte anos em que, religiosamente, compareci ao campo de futebol da chácara do meu pai todos os domingos para participar de uma verdadeira “pelada” de marmanjos, nunca soube o verdadeiro nome do Bel.

O futebol lá era democrático. Um time de camisa, outro sem. Nada de uniformes, juiz, bandeirinhas ou cartolas. Ninguém jogava mais que duas partidas seguidas, vencesse ou não. A exceção era o ecologista Padinha, que tinha “fome” de bola, queria jogar todas. Havia professores, médicos, arquitetos, engenheiros, sapateiros, moto-boys, operários, não se fazia distinção nenhuma, todos entravam no jogo pela ordem de chegada. Um amigo trazia outro e assim por diante, eram sempre mais de vinte, trinta pessoas maltratando a gorduchinha, todos os finais de semana, sob chuva ou sol.

Não sei quem trouxe o Bel com sua inseparável bicicleta. Era um sujeito magrelo, raquítico, negro como a asa da graúna. Dizia trabalhar em fábrica de sapatos. Tinha razoável domínio de bola, atuava no meio campo, mas o físico não ajudava. Gostava de uma bebida e vivia sempre bem-humorado, contando piadas. Estava sempre filando cigarro dos outros, até que lhe deram uma bala com tinta azul de metileno que coloriu até o céu da boca da figura. Nunca mais pediu nada para ninguém.

A não ser para o cachorro. Nos fundos de um dos gols havia uma chácara comprada por um sujeito preocupado com segurança, que logo colocou dois cães enormes para vigiar. Quando a redonda caia lá (e não eram poucas, dada a pontaria da moçada), era montada uma complexa operação salva-bola. O Padinha ia até o portão do vizinho e atraia os cachorros, outro corajoso pulava correndo e jogava a bola de volta. Certa vez, o Bel seguiu o figurino, esperou o Padinha começar a conversar com o cachorro no portão e pulou. Ele não tinha visto, mas havia um outro doberman espreitando-o de soslaio bem debaixo da árvore. Ele correu como um corisco, jogou a bola de volta e apareceu sobre o muro, triunfante, o cachorrão atrás latindo desesperadamente. Mas ocorreu algo estranho, o Bel não desceu do muro.

Até que todos perceberam o que havia acontecido. O cachorro tinha mordido a bunda dele e arrancado o calção. Para seu azar, estava sem cuecas. O jogo acabou mais cedo, pois os dois times esborracharam de dar risada, não houve condições técnicas de prosseguir a partida. Alguém emprestou uma calça velha para o Bel poder ir embora, com a bunda toda arranhada.

Faz muitos anos que paramos de jogar, a turma se dispersou. Às vezes encontro algum dos companheiros pelas ruas da cidade e relembramos os divertidos tempos do futebol de chácara. Foi num destes encontros que me disseram que o Bel havia morrido, em mais um fatídico acidente de bicicleta na avenida marginal dos Bagres. Constatei com pesar a falta que as ciclovias fazem.

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