Há, no Brasil atual, uma parte considerável da sociedade (sua maioria absoluta) que vive o dia-a-dia sem recorrer a qualquer reflexão sobre o que o futuro nos reserva, ou melhor, sobre como poderemos garantir um futuro promissor e de crescimento econômico e social sustentáveis.
É certo que o Brasil vivencia um momento positivo com os investimentos públicos e privados (nacionais e estrangeiros) criando parcerias na modernização da nossa infraestrutura e, também, gerando novas riquezas com a atração de fatores econômicos ligados ao esporte, à cultura e à prestação de serviços.
Entretanto, há uma crescente preocupação quanto ao modelo econômico brasileiro que se justifica nos dados (relatórios) que apontam o aprofundamento da ‘commoditificação’ da nossa economia. Infelizmente, essa preocupação está, até agora, restrita a uma pequena parcela da população, constituída por técnicos, economistas e alguns gestores públicos e privados.
O acadêmico chileno da Universidade de Cambridge na Grã Bretanha, Gabriel Palma, especialista em política econômica comparada, em entrevista concedida ao blog Carta Maior, afirma que ‘há 10 anos as commodities (no Brasil) representavam 25% do total (da economia brasileira). Hoje constituem 50%.
Há um grande desenvolvimento das commodities, mas com poucos produtos processados e com um abandono da indústria manufatureira, o que é lamentável.
O atual modelo econômico, que começou nos anos 80, aprofundou-se com Cardoso e continuou com Lula, se baseia em um tipo de câmbio sobrevalorizado e na entrada de capital, o que vem causando a desindustrialização do país’.
Essas informações são reais e já estão sendo, há certo tempo, motivo de alarde nos meios acadêmicos e industriais brasileiros.
É certo que o governo federal tem se esforçado para imprimir uma nova política industrial no País (exemplo maior é o Programa Brasil Maior), mas existem obstáculos que precisam ser removidos, como por exemplo, a onerosa tributação brasileira e a deficiente formação profissional, para que possamos garantir um crescimento sustentável que, aliás, a Ásia vem praticando há décadas com crescimento constante de até dois dígitos.
O professor chileno ainda aponta que na década de 80 ‘o parque industrial brasileiro era maior que o da Tailândia, Malásia, Coréia do Sul e China combinados.
Em 2010, a indústria brasileira representou pouco menos de 15% em comparação com esses países’. Sem dúvida esse é um efeito direto da desindustrialização que vem, há algumas décadas, ocorrendo no Brasil, e que não sensibilizou governos passados.
Felizmente, vejo na presidenta Dilma o perfil técnico necessário para essa virada de jogo.
Não é a questão, em hipótese alguma, de deixarmos o agronegócio (aliás, a tendência brasileira é de crescimento permanente, abastecendo o mundo e batendo recordes de produtividade), mas, sim, de aproveitarmos o mercado interno e alavancarmos a indústria nacional, protegendo-a se for o caso, sem ingenuidade e purismo diplomático porque o mundo desenvolvido (aliás, aquele que se desenvolveu às nossas custas) é quem mais protege, atualmente, a sua indústria e o seu mercado interno.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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