Reportagem publicada pelo Comércio há uma semana informando que metade dos guardas civis municipais foi reprovada no teste psicológico para operar as tasers, pistolas que emitem choques elétricos, trouxe à tona a antiga rixa entre membros da corporação e a administração Sidnei Rocha (PSDB). Os guardas civis agora acusam a Secretaria Municipal de Segurança e Cidadania de sucatear não apenas as funções da corporação, mas também a estrutura com a qual eles trabalham. As denúncias são graves e envolvem desde abuso de poder até falta de condições de descanso, passando por carros novos já sucateados.
Segundo dez agentes ouvidos, existiria hoje dentro da Secretaria Municipal de Segurança uma auditoria não autorizada montada pelo tenente Sérgio Buranelli, responsável pela pasta, para punir os guardas que resolvem reclamar ou desobedecer suas ordens. “Essa auditoria é uma espécie de tribunal que julga qual punição cada guarda deve receber sempre que a chefia acha que houve alguma falta. Isso é completamente irregular. A Prefeitura já possui uma auditoria oficial para apurar esses casos”, disse um dos agentes que está há mais de 20 anos na guarda - nenhum deles se identificou com medo de represálias.
Entre os casos que teriam sido punidos pela auditoria paralela, está o de um guarda que teria se recusado a fazer rondas noturnas nas redondezas da casa do prefeito, no Jardim Veneza. “O prefeito mora ao lado de um supermercado. Eles queriam que a gente fosse fiscalizar para que nenhum caminhão parasse por ali e fizesse barulho. Esse colega se recusou porque não é função da Guarda vigiar a vizinhança do prefeito. Por conta disso, respondeu a um processo administrativo nesta auditoria paralela e recebeu quatro dias de suspensão”, relatou.
Em outro caso, um guarda teria sido punido com três dias de suspensão por enviar um email se queixando das condições de trabalho. “Não podemos falar nada, se não somos mudados de local de trabalho e de escala. É muito difícil trabalhar assim”, disse outro guarda, há 9 anos na corporação.
Os guardas também denunciam o sucateamento de veículos novos, que estariam parados no Parque dos Trabalhadores, ao relento. “São pelo menos três carros e quatro motos que nunca são usados. Estão lá ao vento. Só saíram da secretaria para desfilar no feriado de 7 de Setembro”, contou outro guarda, que há alguns anos ocupava o cargo de inspetor.
Segundo eles, os veículos comprados com verbas federais há cerca de um ano não são usados porque não há demanda para a Guarda. “Eles nos esvaziaram. Antes fazíamos o transporte de pessoas carente, ajudávamos o pessoal do Conselho Tutelar em suas abordagens, vigiávamos os prédios públicos e ainda fiscalizávamos o trânsito. Hoje, nossa função se resume a ficar parado na porta do gabinete e dos prontos-socorros.”
Sobre as armas de choque, os guardas afirmam que fizeram o curso de capacitação em setembro do ano passado, mas, desde então, não tiveram contato com as tasers, que estariam abandonadas em uma sala sem qualquer segurança na antiga sede da guarda. “Boa parte da Guarda foi mesmo reprovada. Mas me estranha que ninguém tenha perguntado o motivo. A gente fez o treinamento no ano passado e a prova agora. Não estudamos nem fomos treinados. Nem lembrávamos mais de nada das aulas teóricas.”
No início da noite de sexta-feira, logo que tomou conhecimento das denúncias, a reportagem procurou, por telefone, o secretário municipal de Segurança e Cidadania, Sérgio Buranelli. Já em sua casa, que ele afirmou ficar fora da zona urbana, o secretário se recusou a comentar as denúncias feitas por um grupo de guardas civis. “Essas denúncias são sérias. Não são assunto para ser tratado por telefone. Já estou em casa. Não te atendo mais hoje e muito menos no sábado e no domingo. Se quiser falar a respeito, estarei no meu gabinete na segunda-feira.”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.