Se apoiarmos a idéia de que tudo passa muito rápido perdemos a oportunidade de perceber que Deus fala por meio do tempo
É necessário agir com rapidez já que é no tempo que Deus nos dá que precisamos tornar “viva” sua Palavra por meio do nosso testemunho. A Palavra de Deus ilumina a nossa realidade e nos faz entender que os homens sempre alimentaram o desejo de conhecer os mistérios de Deus e por esta razão criaram ritos e cerimônias que lhes permitissem entender os segredos e acontecimentos futuros.
PRIMEIRA LEITURA
Na leitura deste dia (Deuteronômio 18), Moisés descreve as características e funções do profeta: não é um ser estranho caído do céu, é um ser humano, um irmão daqueles aos quais está sendo enviado, não é escolhido pelo povo como o rei, mas é suscitado diretamente por Deus. A ele são comunicados o pensamento e os planos do Senhor, para que os transmita aos irmãos, com fidelidade, sem nada acrescentar e sem nada tirar. Moisés é um exemplo de “profeta”.
Ele narra-nos a leitura de hoje agiu como intermediário entre Deus e os homens. Moisés tinha subido à montanha, tinha encontrado o Senhor, tinha ouvido a voz, tinha depois descido e transmitido ao povo tudo o que ouvira. Eis quem é o profeta: um homem do qual Deus se serve como se fosse um telefone, para fazer chegar aos homens a sua palavra. Hoje, como ontem os homens sentem a necessidade de vaguear para além dos limites impostos pela sua própria condição humana e de sondar os mistérios do mundo de Deus. Hoje como ontem muitos suprem essa necessidade apelando para falsificações. Não há necessidade de apelar para esses truques enganosos e baixos. Não é o homem que deve tentar penetrar no mundo de Deus. É o próprio Deus que quer lhe dirigir a sua palavra e isto ele consegue através dos profetas.
Moisés, certo dia, desejou que todos os membros do seu povo fossem profetas, isto é, pessoas habilitadas para entender e interpretar a voz e o pensamento de Deus em todos os acontecimentos da vida. Os Atos dos Apóstolos narram que, com a efusão do Espírito no dia de Pentecostes, todos os membros da comunidade cristã se tornaram “profetas”. Eles são chamados para serem os “telefones” em permanente ligação, sempre ativados para escutar e fazer ressoar pelo mundo a voz de Deus.
SEGUNDA LEITURA
Para o povo de Israel, como para todos os povos antigos, homens e mulheres que não se casavam e que não tinham filhos, não eram merecedores de estima. Escrevendo aos cristãos (1ª Carta aos Coríntios 7), Paulo introduz uma mudança importante nesse modo de pensar: ele enaltece a virgindade. O que ele afirma de fato? Começa com uma constatação: é verdade que o matrimônio é uma instituição muito sagrada, entretanto exige o perigo que as pessoas casadas se deixem envolver de tal forma pelas preocupações deste mundo a ponto de deixar em segundo plano ou até mesmo prejudicar a união com o Senhor. Quem é casado afirma tem o coração dividido, preocupa-se com as coisas deste mundo, como agradar à esposa, ao passo que quem não é casado está completamente livre para dedicar-se ao Senhor.
O Apóstolo não ensina que os não casados são melhores do que os que vivem no matrimônio nem, muito menos, que o amor conjugal e a vida sexual afastam de Deus. Quem não tem uma família própria, está com o coração livre para dedicar-se por completo a Deus e a todos os irmãos, sem qualquer limite. Paulo fala nesse ponto da virgindade autêntica, aquela que é vivida como dom do Senhor, numa alegre disponibilidade para o serviço do Reino de Deus e dos irmãos. É falsa a “virgindade” que afasta dos homens, que enclausura as pessoas no seu pequeno mundo e numa equívoca relação com Deus que somente produz solidão e tristeza. A verdadeira “virgindade” não afasta dos irmãos: ao contrário, abre o coração para o amor sem limites e sem condições.
EVANGELHO
No evangelho, Jesus é apresentado como porta-voz de Deus e de seu reino. Deus mostra que está com ele. Dá-lhe “poder-autoridade” para fazer sinais. Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus expulsa um demônio, e o povo reconhece: “Um ensinamento novo, dado com autoridade...”
Ora, os sinais milagrosos servem para mostrar a autoridade do profeta, mas não são propriamente sua missão. Servem para mostrar que Deus está com ele, mas sua tarefa não é fazer coisas espantosas. Sua tarefa é ser porta-voz de Deus. Jesus veio para nos dizer e mostrar que Deus nos ama e espera que participemos ativamente de seu projeto de amor. Por outro lado, os sinais, embora não sejam sua tarefa propriamente, não deixam de revelar um pouco em que consiste o reino que Jesus anuncia. São sinais da bondade de Deus. Jesus nunca faz sinais danosos para as pessoas (como as pragas do Egito, que sobrevieram pela mão de Moisés). O primeiro sinal de Jesus, em Marcos, é uma expulsão de demônio. A possessão demoníaca simboliza o mal que toma conta do ser humano sem que este o queira. Libertando o endemoninhado do seu mal, Jesus demonstra que o reino por ele anunciado não é apenas apelo livre à conversão de cada um, mas luta vitoriosa contra o mal que se apresenta maior que a gente.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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