O dia 2 de outubro de 2011 ficará para sempre marcado na história da família Borsari. Marcará o início de uma jornada que abalou a família e vitimou a funcionária pública Eliana Borsari. A jornada de angústia e agonia não deixou apenas a tristeza que naturalmente se abate sobre todas as famílias que enfrentam uma situação como essa. Para os seis irmãos Borsari, sobrou também uma grande decepção em relação ao sistema de saúde pública em Franca, após a funcionária ter passado por cinco médicos que não identificaram que ela tinha sido vítima de dois aneurismas.
Como Eliana não tinha plano de saúde, acabaram levando-a ao Pronto-Socorro Dr. Janjão. “Apesar das advertências da família, Eliana nunca quis contratar um convênio médico. Ela defendia que o acesso a um serviço público de qualidade na esfera da saúde era seu direito, garantido pela Constituição”, lembra sua irmã, a comerciante Maria Aparecida Borsari Lourenço, a Cida.
Até a internação de Eliana, foram três dias, cinco médicos e quatro consultas, sem que ninguém percebesse a gravidade da situação vivenciada por ela. De acordo com Cida, na quinta e última vez em que foram ao Janjão, já tinham decidido que só sairiam de lá com Eliana internada.
“Minha irmã se foi com 48 anos, solteira, independente, culta e ao mesmo tempo burra, porque nunca pagou por um convênio médico”, lamenta Cida.
O problema começou na noite do dia 2, mais ou menos à meia-noite, na passagem de domingo para segunda. Eliana desmaiou em sua casa, onde vivia sozinha. Quando acordou, apesar de ainda estar um pouco zonza e cambaleante, conseguiu chegar até a casa da irmã, que morava a poucos metros. “Ela chegou gritando e confusa. Vomitava muito e queixava-se de fortes dores de cabeça”, disse Cida.
Assustada e surpresa com os gritos e gestos, Cida levou a irmã ao Janjão, já depois da meia-noite. A médica que a atendeu fez as perguntas de praxe, sobre alcoolismo ou epilepsia. Solicitou também um raio X, já que ela tinha um hematoma na cabeça, causado pela queda. Como não foi verificado nenhum tipo de traumatismo e também não havia nenhum histórico de bebidas ou doença, Eliana foi medicada com remédios para o estômago e dor de cabeça, ficando em observação por cerca de duas horas.
Depois disso, Cida a levou para casa. Eliana dormiu razoavelmente bem até as 13h do dia seguinte, 3 de outubro, quando os vômitos e as dores voltaram. Para não retornar ao Pronto-Socorro, as irmãs tentaram de tudo, apelando para a medicina popular. Porém nem os chás, bolsas de água ou massagens na nuca foram suficientes para minimizar o sofrimento de Eliana. À noite, ela foi levada novamente ao Janjão.
Nessa segunda consulta, apesar dos mesmos sintomas, de todas as informações contidas na ficha e de um pequeno intervalo de tempo em relação à primeira consulta, o médico que a atendeu repetiu o mesmo procedimento, receitando inclusive os mesmos medicamentos. Como Eliana não melhorava, Cida procurou novamente pelo médico, mas foi atendida por outro, já que o primeiro estava em seu momento de descanso. O médico manteve a medicação do colega.
Depois de algumas horas tomando os medicamentos na veia, Eliana começou a apresentar alguma melhora. Mesmo assim, Cida solicitou a internação da irmã na Santa Casa. O médico, porém, negou e a orientou a procurar um neurologista no NGA. Disse ainda que, se ela voltasse novamente ao Janjão com os mesmos problemas, aí sim seria internada.
TERCEIRA VISITA
Cida levou novamente a irmã para sua casa. Mas, depois que os remédios deixaram de fazer efeito, Eliana voltou a piorar, apresentando os mesmos sintomas.
Durante todo o dia 4 de outubro, a situação complicou-se ainda mais. Eliana foi levada novamente ao Janjão. Nessa terceira tentativa, foi atendida por um quarto médico. Mais uma vez, porém, repetiu-se o procedimento.
Para os Borsari, essa repetição de procedimentos é uma questão que não foi digerida até hoje. Na opinião da família, somente o estado físico de Eliana já seria suficiente para um pedido de internação. Seria necessário apenas olhar com mais atenção para ela.
Em função de toda essa situação, considerada por eles como um descaso ou um despreparo por parte dos médicos, Cida e seu irmão, Jamil, resolveram levar Eliana a uma consulta particular, na Santa Casa. Nessa consulta, o clínico geral os orientou a voltar mais uma vez ao Janjão. Segundo ele, o caso era para internação e, como ela não tinha plano de saúde, teria de ser pelo SUS.
Já no desespero, Cida, Jamil e a própria Eliana combinaram um plano para conseguir a internação. “Nós fomos para lá com a idéia de chamar a imprensa ou a Polícia Militar. Iríamos fazer um escândalo”, lembra Cida.
Mas, isso não foi necessário. De acordo com Cida, o quinto e último médico que atendeu Eliana percebeu o desespero da família. Medicou-a rapidamente e solicitou a internação. Depois de quase três dias de idas e vindas ao Janjão, às 23h45 do dia 4 de outubro de 2011, finalmente, os Borsari conseguiram internar Eliana na Santa Casa de Franca.
Depois de uma tomografia urgente, foram diagnosticados dois aneurismas cerebrais rotos, uma espécie de dilatação da parede de uma artéria ou de uma veia no cérebro, um caso bastante grave, com recomendação de cirurgia.
No entanto, a cirurgia teve que ser adiada alguns dias, pois o crânio de Eliana estava muito inchado. No dia 11 de outubro, nove dias após o desmaio, ela foi operada. Apesar do sucesso da cirurgia, uma semana depois, Eliana morreu, vitimada por complicações decorrentes dos aneurismas.
QUESTÕES
Em função de toda essa triste história, o que restou aos seis irmãos Borsari foram vários questionamentos. “Por que um médico emergencialista não consegue detectar um problema mais grave apenas com um exame clínico? Por que vendo a ficha do paciente engrossar com pequenos intervalos de tempo não questiona, não conversa com os colegas ou não interna o paciente?”
Inconformada, Cida ainda se pergunta o que teria acontecido se houvesse um tomógrafo no Janjão. “Tenho certeza de que o aneurisma teria sido diagnosticado e ela teria sido internada na hora. Os procedimentos corretos teriam sido tomados e talvez ela ainda estivesse viva.”
O secretário da Saúde, Alexandre Ferreira, diz que “fazer o diagnóstico não é tão simples”.
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