Existem os livros aos quais somos gratos por nos despertarem o gosto pela leitura. Pouco importa a sua qualidade literária, vale a descoberta de um mundo inteiro oculto em fo-lhas e tintas. Existem os livros que na maturidade nos ensinam que ler é ser lido, o que é maravilhoso, às vezes penoso, sempre gratificante. E existem os livros deliciosos. Confesso que desconhecia essa categoria até pouco tempo atrás, mas minha nova empreitada me fez inaugurar novos capítulos.
Dentre todos os títulos apetitosos que hoje recheiam prateleiras reais e virtuais das livrarias, o melhor que li foi Afrodite, da escritora Isabel Allende. Penso que Isabel Allende é uma mulher mais interessante do que sua obra, de qualquer forma, a ho-nestidade com que narra suas histórias é digna de nota.
Por isso, quando ela se dispôs a falar da comida e de toda a sensualidade que os prazeres evocam, não tive dúvida e não me arrependi. Afrodite é uma viagem bem humorada à procura de indícios da existência ou não da comida afrodisíaca.
E ela inicia o livro com um depoimento pessoal que, ilusões à parte, expõe o poder da boa comida como fonte de prazer legítimo: “Depois da morte da minha filha Paula, passei três anos tentando exorcizar a tristeza com rituais inúteis. Foram três séculos com a sensação de que o mundo tinha perdido as cores e um cinza universal estendia-se inexoravelmente sobre as coisas. Não posso precisar o momento em que apareceram as primeiras pinceladas de cor, mas quando começaram os sonhos de comida soube que estava chegando ao final daquele longo túnel do luto...”
Como mãe, como apreciadora da boa comida, detenho-me sobre esse trecho do livro, porque essa observação faz a perfeita diferenciação entre comer e degustar o alimento, e o mais importante: a qualidade do nosso estado de espírito para que a comida evoque o prazer.
Vamos ao que interessa. O livro é uma ficção, mas houve um trabalho de pesquisa dos pratos e de seus efeitos. Inicialmente, a “sabida” convocou ninguém menos que o próprio marido para cobaia, algo como unir o útil ao agradável. Lógico, qualquer dos cozidos teve efeito avassalador, fosse ele o robalo ao curry, trutas re-cheadas, pato, coelho picante... O que a fez desconfiar de que o cérebro estava subjugando o estômago.
Mudou de idéia, então, e convocou casais de amigos inocentes, “pero no mucho”, para os testes e os divi-diu em três grupos distintos. Ao primeiro contou todo o propósito da experiência: claro, sucesso absoluto. No dia seguinte, ligavam para relatar as maravilhas oriundas daquele cozido ou caldo. Para o segundo grupo não contou nada especificamente, mas deixou que entrevissem o assunto. Deixou os comensais verem a receita com nome sugestivo ou os ingredientes com deliciosa descrição de poderes. E bingo! Comprovado novamente todo o efeito afrodisíaco. Mas, para o terceiro grupo de casais, nada disse, nada insinuou. Por isso, caprichou nas ervas e temperos e cozinhou com toda a sua inspiração. No dia seguinte, a notícia de que a fartura da noite anterior não havia embaralhado os sentidos de nenhum deles. Apenas os elogios de praxe: estava tudo uma delícia, ótima escolha, quero a receita etc. Mas, poesia e magia... Cada casal se virou com o próprio repertório. Voltemos ao início: o cérebro subjuga o estômago e a magia é a gente que faz.
Isabel termina o livro numa ode ao amor, ao casamento, o que parece contrastar com os afrodisíacos. No entanto, relata que, durante o período em que escreveu o livro, um ano, experimentou receitas aos montes, e botou em prática tudo o que des-creveu naquelas páginas. Claro, teve um ano muito melhor. O livro relembra-nos o óbvio: comer bem, fazer amor amando são nossos prazeres originais. Aplique-se a isso um pouco de criatividade e poderá reinar sobre a terra como um deus.
Dica da semana
Com a permissão da escritora e cozinheira da página ao lado, nossa dica de hoje é uma brincadeira. É dedicada aos aventureiros. Isabel Allende, a escritora que destaco no texto ao lado, diz que essa receita é sim um afrodisíaco.
Para os curiosos ou aqueles que aceitaram o desafio de fazer uma receita afrodisíaca, lá vai a lista de ingredientes:
- 6 litros de água
- ½ galinha
- 1 osso de vitela
- 150 g de fatias de toucinho
- 200 g de orelha e focinho de porco
- 1 lata de porco
- 1 osso de tutano
- 1 nabo
- 1 cenoura
- 1 ramo de aipo
- 2 alhos-porós
- 1 frango
- ½ kilo de costela de vitela
- 400 g de músculo de vitela
- 500 g de batatas
- 1 couve verde
- ¼ kg chouriço preto
- 200 g grão-de-bico
- Sal
Modo de preparo
Coloque tudo para ferver; atente para a disposição: carnes mais duras por baixo. Coloque um pano de prato imaculado sobre a boca da panela e depois tampe normalmente. Quando toda a casa recender a paraíso, o prato está pronto. Aproveite!.
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