Quem tem menos de 40 anos provavelmente não sabe quem é o sertanejo Amaraí, mas a maioria das pessoas conhece a música composta por ele e pelo parceiro Belmonte há 46 anos, Saudade de Minha Terra, embora possa não a reconhecer pelo nome. A canção começa assim: “De que me adianta viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar. Adeus, paulistinha do meu coração, lá pro meu sertão eu quero voltar...”
Desde 1966, quando foi lançada, a música tornou-se o hino da música sertaneja e marca presença até hoje na programação das rádios e festas de todo o País.
Aos 71 anos, Domingos Amaraí Sabino da Cunha orgulha-se de ser um dos autores e cantores do hit de trabalho do primeiro LP da dupla Belmonte & Amaraí, que vendeu mais de 2 milhões de cópias. Saudade de Minha Terra é apenas o primeiro sucesso da dupla que, em oito anos de carreira, eternizou vários sucessos como Mercedita, Pombinha Mensageira, A Fronha, Desde que te Vi e Morrendo de Amor.
Natural da Bahia, Amaraí mudou-se para Goiás quando tinha 8 anos. Sua primeira dupla, Amoroso & Amaraí, foi lançada em 1963 e rendeu apenas um LP. Um ano depois, Amaraí conheceu Paschoal Todarelli, o Belmonte. Em 1965, eles começaram a cantar nas churrascarias da capital até “explodirem” em todo o País.
A parceria de Belmonte e Amaraí foi marcada por alguns desentendimentos e três separações. A última delas sem volta. Em setembro de 1972, Belmonte, aos 34 anos, morreu num acidente de trânsito perto de Santa Cruz das Palmeiras (SP). Tempos depois, Amaraí reapareceu no cenário artístico cantando sozinho e também com outros parceiros, um deles o Tibagi (o mesmo da dupla Tibagi & Miltinho), com quem lançou dois LPs.
Em 2001, o nome Belmonte & Amaraí voltou à cena sertaneja. Amaraí se juntou a um dos seus quatro filhos, o cantor, compositor, músico e produtor Francis Júnior, hoje com 32 anos, e voltou a fazer shows. O filho mantém o programa de rádio Belmonte e Amaraí em Campos Gerais, a 30 quilômetros de Alfenas. “Nunca incentivei meu filho a cantar música sertaneja. Nunca peguei o violão para ensinar nada. Ele nasceu com talento, esse dom que é de Deus.”
Questionado sobre o que acumulou nesses anos de estrada, ele re-vela: “Casa própria e um carro para andar. Na época, se ganhava apenas a bilheteria. Hoje vivo dos shows e da minha aposentadoria”, diz. A dupla de hoje cobra de R$ 15 mil a R$ 25 mil por um show.
Ao longo de toda a sua carreira, Amaraí lançou 40 discos. Em 1994, ele morou em Franca durante alguns meses e há 17 anos está em São Sebastião do Paraíso (MG). Nas últimas semanas, quase anônimo e, na maioria das vezes, sozinho, Amaraí, que se casou quatro vezes e, atualmente, diz estar “juntado”, tem visitado Franca e já deu “canja” na Morada du Capiau e na Venda du Rico. Por onde passa, sempre arranca aplausos e desperta saudades.
Comércio da Franca - Belmonte e Amaraí fizeram sucesso na década de 1960 com a canção Saudade de Minha Terra que vendeu mais de 2 milhões de cópias. Qual é a história da música?
Domingos Amaraí Sabino da Cunha - Tem um compositor que está meio esquecido, o Goiá, autor de vários sucessos que marcaram e calejaram no ouvido dos mais vividos e de muitos jovens que ainda cantam Pé de Cedro, Recordação... Ele é o autor da música junto com Belmonte & Amaraí. Todo mundo pensa que é do Milionário & José Rico, ou do Sérgio Reis, mas é nossa, do Belmonte & Amaraí. Somos autores e intérpretes.
Comércio - Você tem ideia de quantas vezes Saudade de Minha Terra foi regravada?
Amaraí - Como diz o caipira, que eu dei conta de contar umas 160 regravações de vários cantores e dos astros Chitãozinho & Xororó, Milionário & José Rico e Sérgio Reis.
Comércio - Então o senhor já ganhou muito dinheiro com os direitos autorais dessa música?
Amaraí - Se os direitos autorais fossem pagos nesse país, eu seria arquibiliardário, mas eles são roubados escandalosamente. Naquela época era 5% de tudo que você vendia, mas vendia-se 100 mil cópias e apresentava-se 10 mil...
Comércio - Quantas canções Belmonte e Amaraí gravaram? Quais são os grandes sucessos?
Amaraí - Nós gravamos seis LPs originais, 12 músicas em cada um, umas 70 em seis anos. Daí surgiram vários sucessos: Pombinha Mensageira, A Fronha, Desde que te Vi, Morrendo de Amor, Mercedita [ele canta um trecho: “Recordo com saudades seus encantos Mercedita...”], Entre Lágrimas [canta outro trecho: “Se um dia eu chorar, ninguém vai saber porquê...”]. Nesses seis trabalhos, fora as montagens, são mais de 20 sucessos que o povo canta, regrava e nos shows a plateia pede.
Comércio -Após a morte do Belmonte, o senhor fez carreira solo. Fez outras parcerias também?
Amaraí - Sim, mas não deram certo. A gente quer as coisas depressa e para Deus é mais demorado. Ele sabia que eu tinha que esperar até aparecer o meu filho Francis para cantar comigo. E, se ele não tivesse talento, eu não ia fazer isso.
Comércio - Como o senhor descobriu o talento do seu filho? Como foi o início da parceria?
Amaraí - Nunca incentivei ele a cantar música sertaneja. Nunca peguei o violão para ensinar nada. Ele nasceu com talento, esse dom que é de Deus. Eu falando não, ele falando sim... Ele fez umas parcerias, não deram certo. Aí, ele falou: “Pai, a gente tá a toa mesmo, vamos fazer uma dupla”. E eu respondi: “Tudo bem, se você gosta de ficar com o velho, então tá bom”.
Comércio - E essa parceria já dura dez anos...
Amaraí - Graças a Deus. Temos feito uns dez shows por mês no Brasil inteiro até junto com outros artistas que hoje são estrelas do País.
Comércio - Recentemente, os irmãos Zezé di Camargo e Luciano discutiram durante um show e Zezé anunciou o fim da dupla. Manter uma parceria é difícil e há muitos boatos sobre brigas entre Belmonte e Amaraí... Quais as lembranças que você tem da dupla?
Amaraí - Vamos às ruins primeiro (risos). Eu e o Belmonte “explodimos” no país de uma hora para a outra, como aconteceu com o Mamonas Assassinas. A gente era muito novo e inexperiente. Aí, as mulheres e os concorrentes começaram a separar a dupla. Em seis anos chegamos a nos separar duas vezes, mas separação de 15 dias. Tem pessoas que falam que houve tiros, guerras, mas isso nunca aconteceu. Já o sucesso da dupla é uma lembrança muito boa. Naquele tempo não tinha esse negócio de mídia. A única coisa que você podia fazer [para tocar na rádio] era levar um canarinho numa gaiola para o radialista, não precisava dinheiro. Agora, diz quanto tens que te digo quem tu és. É ruim isso porque o talento saiu voando pela janela.
Comércio - Falando nisso, o senhor acompanhou a evolução e o caminho que a música sertaneja percorreu nos últimos anos. Qual é o peso do talento hoje no sucesso do cantor? O perfil do cantor sertanejo mudou?
Amaraí - Hoje é só ser magrinho, loiro, com os olhos quase verdes (se não tiver, põe lentes de contato), usar uma fivela na barriga, aí vira cantor. Não é desabafo, é a verdade e está na televisão para todo mundo ver. O que eu fiz foi tudo no talento. Antigamente, para gravar um disco, você ia na gravadora e passava por dois testes: o da gravadora e o dos vendedores de discos. Se a dupla agradasse os vendedores, aí podia gravar. Foi o que aconteceu com Belmonte & Amaraí, Nenete & Dorinho, Pedro Bento & Zé da Estrada. É lógico que a gente não vai viver só do passado, mas tem muita gente boa por aí que está parada porque não tem uma grana suficiente para se lançar...
Comércio - Das duplas que fazem sucesso atualmente quais têm talento, na opinião do senhor?
Amaraí - Meus amigos César e Paulinho, que são dois jovens que têm um respeito muito grande pela música sertaneja, pela nossa raiz, pelos nossos princípios e não esquecem dos mais velhos. Além disso, vêm de uma escola finíssima: são filhos de Craveiro & Cravinho. Recentemente, participamos da gravação do DVD deles ao lado de Sérgio Reis, Chitãozinho & Xororó, Inezita Barroso...
Comércio - Belmonte e Amaraí são os precursores do “sertanejo moderno”. Vocês inovaram na instrumentação incluindo harpa paraguaia, piano, bongô e trompetes. Foi uma revolução na música de raiz?
Amaraí - A influência da música latina, mexicana, paraguaia estava chegando no Brasil naquela época. Antes disso, era mais moda de viola, raiz. Aí começamos a gravar com trompete, harpa, acordeon e violinos. Gravamos muitas versões de canções latinas que fizeram sucesso no mundo inteiro e o Brasil passou a conhecer através de nós. Inclusive boleros famosos imortais como Solamente Una Vez e Na Fronteira do México.
Comércio - Mas o senhor considera que na época foi uma revolução na música sertaneja?
Amaraí - Eu tinha medo de dizer isso, mas hoje não tenho medo de falar porque realmente foi. Mas não fomos os precursores porque antes de nós teve Tibagi & Miltinho, que gravou com violinos, Nenete & Dorinho, que já gravou com trompetes. A verdade tem que ser dita. Eles tinham inovado, mas nem tanto como nós.
Comércio - O senhor acredita que a música sertaneja universitária é outra mudança do sertanejo ou não considera esse ritmo sertanejo?
Amaraí - Não quero que ninguém se magoe porque tem muito pessoal dessa turma que tem regravado as nossas canções, mas acho que é o outro lado da coisa, um “popnejo” que não tem nada a ver com a nossa raiz, com o nosso sertanejo.
Comércio - Qual é a principal diferença entre o sertanejo e o “popnejo”?
Amaraí - Acho as letras (do “popnejo”) sem recurso, sem poesia. Quer dizer, canta, mas não arrepia. Antigamente, o cara cantava, tomava uma cachaça brava, ficava bêbado por causa de mulher e dava tiro para cima (risos)... Esse “trem” não acontece mais hoje...
Comércio - Do que o senhor sente mais saudade?
Amaraí - De muita coisa. Tenho saudade dos filmes do Mazzaropi, de um Tião Carreiro & Pardinho, sabe? Do tempo das serestas em que a gente cantava nas casas das pessoas e não tinha o perigo de ser assaltado. Hoje não tem mais aquele afeto, carisma, respeito pelas coisas do Brasil. Tudo é descartado, se usa e joga fora. Gente, vamos dar valor no que é nosso. Você chega no Paraguai e vê aquela harpa tocando. O rock dos Estados Unidos é o primeiro lugar do mundo. Aqui temos vergonha da nossa cultura...
Comércio - O senhor ainda se emociona quando ouve Saudade de Minha Terra?
Amaraí - Sim. Já pensou uma música que a gente cantou em 1966, hoje estamos em 2012, e ela não parou de tocar mais? São 46 anos. Isso me emociona, fico feliz de ouvir aquele feijão com arroz, mas original, com chiado e tudo.
Comércio - O senhor vai continuar cantando?
Amaraí - Como diz o Geraldinho: “Enquanto Deus está dando uma demão nós vai (sic) teimando pela vida afora”.
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