Reportagem de Marco Felippe e Nelise Luques
Com efeito devastador, o crack tem dominado as internações nas comunidades terapêuticas de Franca. Em sete entidades da cidade, a droga responde por 57% das 218 vagas ocupadas e ultrapassou os atendimentos feitos por dependência em álcool e outras drogas, como maconha e cocaína. É como se a cada dez internos, seis buscassem tratamento para vencer o vício do consumo da pedra. No município são oferecidas pelo menos 284 vagas, entre particulares e públicas por meio do SUS (Sistema Único de Saúde). Apesar de desocupadas, as 66 vagas restantes estão prestes a ser preenchidas, pois os pacientes que irão ocupá-las passam por processo de triagem com médicos e assistentes sociais.
O Narev (Núcleo de Apoio e Recuperação da Vida) oferece 64 vagas em dois núcleos e tem hoje 35 pessoas internadas. “O crack responde por 90% das internações e para que haja recuperação, o paciente precisa querer”, disse o coordenador Rogério Rodrigues.
O aumento das internações por crack, segundo o presidente do Dc-novi (Desafio Cristão Nova Vida), Antônio Berbel, tem relação com a facilidade de acesso ao entorpecente, o potencial da droga e o preço acessível. “O crack leva a pessoa à dimensão que ela deseja mais rápido e por um preço menor. Com R$ 4 ganhos pedindo moeda, já se pode comprar uma pedra.”
Aberto em 1985 com o objetivo de tratar alcoólatras e pessoas que consumiam maconha, o Dcnovi não tinha naquela época o crack na lista de drogas usadas pelos internos. Nos últimos quatro anos, a situação é praticamente inversa. Dos 15 homens em tratamento, dez deles são ex-usuários de crack.
Os números também são atestados pelo orientador geral da Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino), Maurício Maniglia. Na instituição, destinada ao atendimento de mulheres dependentes, mais da metade das internas se envolveram com crack. O percentual é semelhante ao registrado na entidade masculina Amamasc (Associação Mão Amiga de Amparo Masculino), onde dos 23 homens em recuperação, 13 tiveram contato com a droga.
Rodrigo (nome fictício), 31, está internado no Narev há dois meses e meio. É a segunda vez que busca tratamento para o vício. Ele usou drogas durante 15 anos, consumia cocaína e crack. “O crack é bem mais forte, é destruidor. Mentalmente você fica abalado e perde muita coisa da sua vida porque ele te tira, além do dinheiro e bens, a autoestima, autoconfiança, você perde o amor em si e no próximo.”
A ciência confirma o que Rodrigo relata. Diferente da cocaína, que demora até dez minutos para fazer efeito, o crack age em segundos e provoca sensações de prazer e raciocínio mais rápido, porém ao mesmo tempo causa queimaduras internas no pulmão, afeta o sistema psicológico e cria sensações de perseguição, desconfiança e alucinações.
Em Franca, o consumo de maneira indiscriminada tem ocorrido no antigo “piscinão”, na avenida Major Nicácio. O local pode ser considerado uma minicracolândia. O Comércio flagrou semanas atrás o consumo da droga em vários momentos do dia na área.
OBRIGATÓRIA
Um das ações do plano do governo federal, recém-lançado, para combater o consumo de crack no país prevê a internação compulsória de usuários. Atualmente, ela só acontece com autorização judicial, mas a proposta é autorizar a internação sem consentimento do usuário em casos de emergência, quando, por exemplo, há risco de vida para o paciente.
Wanderley Cintra, presidente do Hospital Allan Kardec, disse que a medida pode superlotar a instituição. “Não vai ter lugar para todo mundo.” O hospital que atende pelo SUS e particular tem 240 leitos no total para atender 23 municípios.
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