Sentada num banco de concreto no bosque da fazenda de recuperação de dependentes químicas Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino), a costureira de sapatos Ana (nome fictício) acaricia a barriga miúda que calcula ser de cinco meses de gravidez. Aos 20 anos, a jovem, que convive com as drogas desde os 12 anos, será mãe pela terceira vez. O primogênito de 7 anos e a segunda filha de 3 anos foram retirados dela pelo Conselho Tutelar.
Com o terceiro filho, Ana quer escrever uma história diferente. Internada na Amafem há dez dias para tentar vencer o vício em crack, ela diz que pretende deixar o caçula sob os cuidados de sua mãe até terminar o tratamento de seis meses.
Ana mora na zona norte de Franca e conheceu as drogas com uma turma de amigos na rua do seu bairro. Era uma menina quando experimentou maconha. Com o passar dos anos conheceu a cocaína e o crack. “Comecei a usar crack só por curiosidade e virou essa bola de neve.” A definição de “bola de neve” escolhida pela jovem mãe traduz uma vida marcada pelo vício em drogas e por muitas perdas.
É a segunda internação dela na Amafem. Diz que agora sentiu “seu coração ser tocado” e decidiu reiniciar a luta contra as drogas. Na primeira vez, há alguns anos (não sabe a data exata), ficou internada só 12 dias. Antes da internação atual, Ana vivia dopada. Fumava pedras de crack todos os dias. Acordava ao meio-dia, não se alimentava e já corria para comprar a droga. “A gente ia fumando, fumando e nem via a hora passar.”
Ana pagava de R$ 4 a R$ 10 por pedra. O dinheiro? Vinha da prostituição. “Quando tinha 16 anos tive a ideia de usar meu próprio corpo para conseguir dinheiro para as drogas sem ter de mexer nas coisas dos outros. Todo dia tinha um cliente para me fortalecer nos trinta real (sic) pra eu comprar crack”, disse ela, que cobrava de R$ 15 a R$ 30 pelo programa.
A jovem disse, no entanto, que seus três filhos são do mesmo pai, um homem de 28 anos com quem vivia.
Ana sabe das graves sequelas que as drogas, em especial o crack, podem trazer ao bebê e diz ter medo disso. “Meus dois outros filhos nasceram saudáveis, graças a Deus. Medo desse filho que vai nascer ter alguma coisa eu tenho, mas tenho fé grande que não vai acontecer nada disso.”
SEM ESTATÍSTICAS
Não existem estatísticas de quantos “filhos do crack” nascem anualmente em Franca. As mulheres, segundo os médicos, escondem o vício em drogas, o que dificulta o levantamento de dados. “Em geral, as mulheres não declaram que são usuárias de drogas. Percebemos pela aparência, pelos hábitos ou quando já são acompanhadas pelas equipes de saúde e serviço social”, disse Ana Lúcia Rodrigues, médica ginecologista, coordenadora do Comitê de Mortalidade Materno-Infantil da Secretaria da Saúde.
O médico obstetra Selvio Simon estima que, dos 25 partos que realiza por mês na Santa Casa de Franca, hospital referência na região, um ou dois são de mães envolvidas com drogas (leia mais aqui).
Segundo os médicos, ao ser tragado pela mãe, o crack atinge a corrente sanguínea e chega à placenta. É como se o bebê também fumasse as pedras. Ao nascerem, os bebês podem sofrer a chamada síndrome de abstinência pela falta da droga no organismo e sofrer convulsões, falta de ar, tremores, apresentar choro excessivo, irritabilidade e taquicardia. Em alguns casos, precisam ser sedados para se livrarem dos sintomas.
“As crianças podem sofrer alterações neurológicas graves, apresentar déficit de atenção, de memória, dificuldade escolar, má formação congênita e até ter sequelas para o resto da vida”, disse a pediatra Rita Bertelli, médica na UTI Infantil da Santa Casa.
Segundo ela, os efeitos do crack durante a gestação podem ser diretos ou indiretos. “A mulher que consome crack normalmente se descuida, não faz um pré-natal bem feito, nem a higiene correta, ficando mais propensa a adquirir infecções. A prostituição também acaba sendo uma constante para que tenham como alimentar o vício.”
Além disso, os riscos de aborto e nascimentos antes das 40 semanas de gestação são comuns entre mães dependentes químicas. “Há maior chance de partos prematuros porque os hábitos das mães favorecem infecções urinárias e outras”, disse a obstetra Ana Lúcia Rodrigues.
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