O ginecologista-obstetra Selvio Simon atua no Agar (Ambulatório de Gestantes de Alto Risco), em Franca, e atende em média 46 novos casos por mês. São mulheres grávidas com problemas de hipertensão, tireóide, doenças cardíacas, diabéticas, vítimas de toxoplasmose, com bebês com má formação e também usuárias de drogas.
O especialista estima que 10% (4,6) das 46 novas mulheres atendidas por mês no Agar tenham envolvimento com algum tipo de droga, seja maconha, cocaína, álcool ou tabaco. Usuárias de crack, segundo ele, não fazem parte das estatísticas porque elas se isolam e não procuram atendimento na área da saúde.
Obstetra há 16 anos, Selvio Simon costuma realizar 25 partos por mês na Santa Casa de Franca. Ele estima que um ou dois casos do mês são de mães que consomem drogas.
Comércio da Franca - Qual a diferença entre usar crack e outras drogas na gravidez?
Selvio Simon - O crack tem um efeito devastador, não só financeiramente, mas psicologicamente e socialmente. O perfil da mulher que consome crack é de alguém que precisa comprar uma droga barata, de efeito rápido e potente. A maconha geralmente é usada como droga recreacional e na gravidez a mulher consegue frear o uso. Cocaína, nicotina e crack são estimulantes e fazem com que as pessoas usem cada vez mais, por isso costumam ter um fim devastador.
Comércio - Por que as usuárias de crack não procuram atendimento no Agar?
Selvio - Elas têm medo de serem flagradas como usuárias de droga e a Justiça tirar a guarda dos seus filhos. E isso acontece algumas vezes. A mulher ainda pensa que para procurar o atendimento tem necessidade de ter parado de consumir a droga. Elas podem vir ainda como consumidoras porque temos como ajudar e, se quiserem parar, daremos assistência.
Comércio - O senhor acha que se tornou mais comum o uso de drogas por grávidas ?
Selvio - Sem dúvida. A gente percebe que aumentou o número de mulheres dependentes de drogas. Tem aumentado inclusive a incidência de mães sob o efeito de drogas na hora do parto, o que faz com que retardem ao máximo a procura pelo sistema de saúde. A gente percebe alguns sintomas nelas, as aborda e elas revelam ter consumido drogas. Elas têm agitação, agressividade e falam frases desconexas.
Comércio - Que risco a mulher grávida que usa crack apresenta para ela e o filho?
Selvio - Ela pode ter hipertensão arterial, taquicardia, levando até a falência do coração. O bebê pode ter taquicardia, descolamento de placenta, sangramento e morte. A cocaína e o crack diminuem o fluxo de sangue para o útero e placenta e podem causar contração do útero. Isso pode diminuir a oxigenação para o feto e provocar sua morte ou deixar sequelas. Eles podem ter baixo desenvolvimento intelectual e ter síndromes psicológicas na vida adulta. As crianças nascem pequenas. Os bebês nascem tão dependentes quanto a mãe. Eles apresentam irritabilidade, choro fácil e convulsão..
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