Recebo, quase todos os dias, arquivos de e-mails na minha caixa de correio virtual que trazem textos com belas imagens. Quase sempre as imagens são bem melhores que os textos e, na maioria das vezes, a autoria é criada com nomes importantes para dar credibilidade ao autor. Pobre Fernando Pessoa que se tornou o campeão de textos na internet, “escrevendo” coisas que, suponho, nunca chegaria nem perto de seu excepcional talento. E as pessoas repassam, elogiando o brilhantismo do poeta. Enfim, os verdadeiros autores dos textos querem ser lidos, então é melhor se chamar Fernando Pessoa do que simplesmente fulano de tal.
Mas essa semana, recebi um texto bastante simples que veio em forma de oração. Aliás, as orações e correntes também são campeãs nos e-mails... E elas ainda vêm com ameaças, pois se você não repassar ou ousar cortar a corrente, você...
Bem, na verdade, eu sempre dou uma olhada em tudo, principalmente, em consideração à pessoa que me enviou.
O texto em questão chamou minha atenção porque, ainda que em uma linguagem bem descuidada, traduzia, na sua essência, exatamente aquilo que, acredito eu, inviabiliza nossas relações afetivas. Como não tem uma autoria (e nem usou o nome de Fernando Pessoa!), resolvi adaptar, reorganizar e reescrever na medida em que faz sentido para mim. E assim ficou ele:
Senhor, estou envelhecendo e por isso não posso perder mais meu tempo. Então quero lhe pedir que me ajude a me livrar de algumas tolices.
Livra-me do engano de achar que devo dizer algo em toda e qualquer ocasião. Livra-me deste desejo enorme que tenho de querer pôr ordem na vida dos outros. Livra-me de desejar impor minha visão da realidade só porque considero lamentável não passar adiante a sabedoria que acumulei.
Livra-me da chatice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dá-me asas no assunto para voar diretamente ao ponto que interessa.
Senhor, também não me permita algumas coisas: dar conselhos, principalmente para quem não pediu, seja ele amigo, irmão ou filho; julgar como absurdo as atitudes do outro, como se eu fosse imune a qualquer coisa parecida e ficar falando de doenças ou descrevendo minhas dores (pois com a idade elas vão aumentando!).
Ensina-me, Senhor, a fazer silêncio e a ouvir com alguma paciência, mesmo que seja a descrição minuciosa das dores do outro; ensina-me a aceitar as pessoas mesmo quando elas me desapontam, fugindo do ideal que eu criei para elas e ensina-me a maravilhosa sabedoria de reconhecer que posso estar errada em várias ocasiões.
Assim, Mestre, conceda-me a graça de me tornar, a cada ano que passa, uma pessoa amável, sem causar no outro o desconforto das pessoas maçantes, desagradáveis e sem a empáfia dos orgulhosos. Se assim eu conseguir, Senhor, sei que estarei envelhecendo com sabedoria. Amém. E que assim seja.
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