Em meados dos anos 70, Franca passava por mudanças em sua paisagem urbana sem precedentes. Os velhos casarões do período cafeeiro, da cidade de tijolos, estavam sendo rapidamente substituídos por edifícios de concreto e aço. Aquilo que ainda existia em taipa também entrava no ritmo de destruição. A Câmara botava lenha na fogueira ao discutir uma lei que exigia que os prédios na praça Nossa Senhora da Conceição tivessem mais que dez andares. Até o Relógio do Sol estava ameaçado.
Logo em seguida veio o episódio do Hotel Francano, cuja demolição absurda (sob aplausos de boa parte da imprensa e da chamada opinião pública) gerou a criação de um Conselho de Preservação Histórica no município. Cheia de altos e baixos, a ação do Condephat nunca se consolidou, dependendo dos humores do governante de plantão.
Nos últimos anos, o fracasso da preservação histórica em Franca se evidenciou. Não há um único culpado, as causas são muitas. Mas boa parte do fracasso se deve creditar à inoperância e omissão do poder público e o distanciamento das universidades locais, que nunca se interessaram em elaborar um inventário dos bens culturais para definir com clareza uma política para o setor. Os poucos imóveis tombados não estão sendo objeto de adequada conservação das características que os levaram a ser ‘preservados’.
Há inúmeros exemplos. O prédio da estação ferroviária recebeu mais um penduricalho: uma caixa d’água externa horrorosa. Sua cobertura foi em parte substituída por outro tipo de telha e o local onde deveria estar o Centro Cultural Salles Dounner está abandonado. O Champagnat vai mudando de cor a cada ano e sucessivas intervenções são realizadas sem critério técnico adequado a um bem tombado, como de prevenção contra incêndios. A antiga fábrica Jaguar se altera todo dia, sem qualquer controle. Do Clube dos Bagres, uma obra em andamento no local fala por si.
A presidente do Condephat desde 2005 tem tempo para escrever um livro sobre seu chefe, o prefeito, mas não para dinamizar sua atuação. O MIS, reduzido a um site (estranhamente desvinculado da Prefeitura num endereço comercial), é um exemplo de como não deve ser um site do poder público. É apenas um mecanismo de exaltação ao prefeito: o link ‘Sua História’ só tem uma história: a do prefeito. Mistura alhos com bugalhos, fotos, convites e propaganda oficial, tornando difícil a consulta.
A Prefeitura tem recursos sobrando atualmente, que tem levado a extravagantes projetos de aquisições como do ‘esqueleto’ e de fábrica abandonada. Por que não utilizar parte destes recursos para adquirir o prédio da AEC e instalar ali uma verdadeira Casa da Cultura?
Por que não preservar o verdadeiro patrimônio histórico da cidade? A preservação da memória local é uma das mais importantes obras de cidadania, que dá sentido ao viver em coletividade. Sem isso, a cidade será apenas uma profusão de prédios e ruas desconexas, apenas lugar de passagem, como viadutos o são.
Mauro Ferreira
Arquiteto e professor da FESP-UEMG
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