Vivemos em sociedade. Há situações nas quais, se a verdade for revelada, é catastrófico. Por essa razões, mentimos. Existem mentiras brancas, sociais, inocentes e aceitáveis, atos instintivos do ser humano. No Direito, a mentira tem relevância pelo dolo (vontade deliberada de realizar o ato) e pelo prejuízo moral ou material causado.
Somos educados para mentir? Quando a criança ganha um presente do qual não gosta, e fala, os pais a repreendem para que não seja ‘mal educada’. Da próxima vez em que ganhar, certamente mentirá para evitar a repreensão. Mentimos por variados motivos. Por vergonha, para conquistar respeito, status, evitar conflitos etc. Em currículos, é comum a mentira quanto à profundidade dos conhecimentos educacionais e profissionais. Dizer para uma mulher que ela está acima do peso é confusão na certa. Dizer que a roupa dela está inadequada, nem pensar. Isso é mentir.
Precisamos diferenciar a mentira inocente/social da patológica, da obsessão, do distúrbio da personalidade – os mitômanos. Para mentir é preciso definir a verdade, o que também não é fácil. Há verdades objetivas e subjetivas. Explico: imagina-se chegando em casa. Em sua porta, há um carro maravilhoso, novo, aquele que tanto deseja. Ao abrir a porta, seus olhos dão de encontro com sua esposa abraçada a um homem forte, lindo, sorridente. Imediatamente você acredita em traição (objetivamente). Na verdade, você acabou de ganhar o carro em promoção que participou. O abraço da esposa (subjetivamente) não corresponde a traição, mas a sentimento de contentamento pelo prêmio.
Omissão também é uma mentira. Deixar de dizer algo é não contar a verdade, logo, é mentira por omissão. Intuitivamente sabemos quando alguém mente, mas há pessoas que mentem com tanta habilidade que não conseguimos detectar. Em Direito, pune-se o estelionatário - art. 171 do Código Penal. Há pessoas com habilidade para enganar.
Saiba, no entanto, que é possível detectar a mentira, pois o nosso cérebro não coaduna com ela. Os seguintes sinais/gestos não podem ser tomados ao pé da risca, mas, junto com outros elementos (padrão) são suficientes para aumentar a margem de acerto na detecção da mentira. Vejamos: num momento crucial ou importante da vida, quando perguntado sobre algo não verdadeiro, tende-se a morder os lábios, passar a mão levemente sobre o nariz, boca, ouvido, como forma de demonstrar que não quer ver, ouvir, ou falar sobre o assunto.
Passar a mão atrás da cabeça, na nuca, levantar um dos ombros são outros sinais. Nem sempre o desvio do olhar é sinal de mentira, até porque mentirosos profissionais desenvolvem olhar fixo no outro como meio de convencimento. Gestos têm que concordar com a emoção, com a fala. Estudos indicam que as pessoas mais bonitas e mais boazinhas tendem a mentir mais, porque é agradável olhar o belo, e as boazinhas, porque querem sempre agradar. Mesmo quando há silêncio, pode-se detectar a mentira através da repetição de gestos como bater os dedos sobre a mesa, suor, rubor na face, respiração ofegante, engolir seco, pigarrear, olhar para cima e lado direito, choro sem lágrimas, piscar os olhos com frequência, tempo longo para responder. Sendo assim, cuidado com as ‘verdades’ que diz, pois podem ajudar no sucesso ou insucesso pessoal e profissional. Cuidado também ao julgar e condenar as pessoas. Elas podem estar dizendo verdades, ainda que não acreditemos.
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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