Tragédia anunciada


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Como já dissemos nesse espaço, as chuvas de janeiro se assemelham ao livro de Gabriel Garcia Márquez, Crônica de uma Morte Anunciada, publicado em 1981. No romance, o autor conta a história do assassinato de Santiago Nasar, acusado de desonrar uma jovem. Na forma de investigação jornalística, a obra mostra que toda a cidade tinha conhecimento do que iria acontecer, mas que a vida seguiu seu curso e ninguém fez nada para evitar o pior. Anunciado na primeira linha do livro, o assassinato se consuma no final.

O que assistimos em todo o país nesse início de 2012 segue basicamente o mesmo estilo do premiado escritor colombiano, o realismo fantástico, mas com uma diferença, o nosso é mais real e muito menos fantástico. As cenas que hoje nos chocam vem sendo anunciadas, e mostradas, por anos seguidos. Sempre com o mesmo enredo, ou seja, gente perdendo suas casas, seus pertences e até mesmo suas vidas.

As imagens que se reproduzem diariamente em todos os veículos de comunicação são as mesmas que nos comoveram no ano passado, e em 2010, em 2009, 2008 e por outros anos anteriores. Essa nova tragédia estava anunciada desde as últimas enchentes e deslizamentos, assim como nossa comoção e nossa solidariedade. Mas para evitá-la, como de costume, ninguém fez nada. Se pegássemos quaisquer dessas gravações dos anos anteriores e nelas colocássemos uma narração atualizada, ninguém iria perceber, a não ser os próprios moradores, que logo estarão novamente abandonados, esperando sozinhos pelas próximas chuvas que virão.

Talvez, de ano em ano, tivéssemos que atualizar o nome de algumas cidades atingidas pela violência das águas dos rios, mas as causas continuariam as mesmas, porque por incrível que pareça, não são combatidas por nossas autoridades, pelo menos não com o empenho que deveriam merecer.

Obviamente, todos sabem que o adensamento populacional brasileiro não obedeceu a nenhuma orientação mais racional. Muito pelo contrário, nossa urbanização deu-se de forma caótica e desorganizada, sem qualquer tipo de atenção para com o meio ambiente ou os fenômenos naturais. Conforme a cidade foi crescendo, a população foi avançando sobre espaços que deveriam ficar livres da presença humana, como encostas de morros e margens de rios.

Talvez por isso os rios se vinguem anualmente, retomando, mesmo que temporariamente, um espaço que milenarmente sempre foi seu. Como versejava o poeta alemão Bertold Brecht, falamos apenas da violência das águas caudalosas de um rio, mas pouco nos importamos com a truculência das margens que o reprimem.

Mas parece que não nos importamos muito com isso. Depois da comoção, seguimos novamente resignados, esperando pela próxima tragédia anunciada.

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